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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ensaio

A ficha caiu, o tombo rolou. O escombro do tempo que passou, e que passa, sem mais, nem menos. A água que forma o granizo gritado na furiosa queda da tempestade pode ser a mesma contida na melancólica lágrima que cala, suave, as palavras não ditas, de um extremo ao outro. As duas coisas, as mesmas coisas, como o início e o fim. 

A vida se cala no peito inanimado pela falta do tonus, que se esvai ao final dos sonhos que dão lugar ao mundo real. O mundo real, que de real não tem nada que possa ser tocado por este lado, a não ser pelo pensamento. Se é que alguém pensa nisso. Se é que alguém se lembra, depois, como era o antes, quando a vida ainda pulsava nas veias.

Não, ninguém se lembra de como era, a não ser de vez em quando, que é quando chega a saudade, sorrateira, sem sorrisos, matreira. Não, ninguém se importa até que chegue o momento de deitar-se no mesmo leito, para enfrentar o mesmo momento que todos, um dia, hão de enfrentar. O momento inadiável, a regra inabalável. O fim.

Ou o começo, tanto faz, quanto fez. Quantas vezes for preciso. Quantas vezes foi preciso antes dessa, e quantas ainda serão? As perguntas nunca se calam, mas as respostas perdem suas vozes dentro de passados tão distantes, de histórias tão distintas, caminhos tão errantes.

Tudo isso serviu para alguma coisa?

terça-feira, 30 de julho de 2013

Represa

A água corre, sem pressa, sem dar bola para o que vai encontrar pela frente. Leva o peixe, leva o barco, leva o céu refletido em si. Leva tudo o que aparece em seu caminho.

Mas quando encontra o muro, ou a comporta, nem sempre se comporta. Procura as brechas, as rachaduras, os vãos. Procura até que acha, e passa, pouco a pouco, de gota em gota.

Mas, se quiser, pode passar com tudo. Derrubar, espalhar, afogar. Fazer sumir o que estava no mapa. Rola a pedra, remexe a areia, derruba as pontes. Vai com toda força.

A água é a paciência.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Peso pesado

A rotina do exagero é o que se joga fora todo dia: é o lixo na calçada, é a fumaça no céu. É a briga por um nada, gente invisível fazendo escarcéu. É tudo rejeitado, a testemunha sem seu véu.

O exagero da rotina é a luta pelo mesmo: é a mesmice da cegueira voluntária, é o passeio com o cachorro. É o calor desejado nas friezas do inverno, é o frio aclamado nos desesperos do verão.

O exagero e a rotina enamoram-se de todos. Dos que ficam, dos que fogem. Dos que bebem e dos que engolem. É a força da estática, a matéria do enfadonho. É o medo desse mundo tão estranho.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ponto morto

O esforço é grande para manter afastadas as paredes que se fecham, e o teto que desce, assim como o chão que sobe, a janela que sela, a porta que bate. Mesmo que nada se mova, tudo comprime o ar, que comprime o peito, que arfa com dificuldade, procurando o grito alto que faça soar o alarme, que faça rolar a lágrima, que afrouxe os nós.

O peso é grande, e curva as costas, aperta as costelas, e dobra as pernas. Cega os olhos, movendo as saídas de um lado para o outro, para que não sejam vistas, ou alcançadas. O cansaço da imobilidade apunhala a alma com mais força do que o desgaste da ação, alimentando os vícios do desânimo, desanimando as horas, que começam a se arrastar, sem graça.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Puft!

O fim, que tanto justifica o meio, no fim não faz jus ao esforço empreendido, porque este foi pouco, quase nada. E, no fim, o meio e o fim são apenas o quase nada: tempo perdido, engano impossível, paciência esgotada. E o fio da meada permanece escondido entre os restos de tudo, pouco que seja, seja lá o que for. E nem saudade desperta...

E segue a vida, segue o seco, segue a rotina seu caminho imutável. Tão cheio de tantas coisas iguais, que o saco mais que se enche: estoura pelos motivos banais que somente as rotinas produzem. E ninguém, no segundo de vácuo, logo após o estouro, é capaz de ouvir a mensagem que o coração silencia: o desdém é o algoz de qualquer paciência...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Meio dia

O meio dia, o meio do dia, o meio de nós, o meio dos dias. A hora do encontro, almoço, despedida. A hora de todos, todos na linha. Os passos na rua, as vias do compromisso. O vai e vem de tudo, o movimento que sustenta o mundo. O mundo que nos sustenta em suas crônicas e musas. De tudo o que fazemos, não gostamos de tudo, mas tudo o que fazemos têm os dedos de nossas mãos. O suor de nossos corpos, o limiar de nossas mentes. Nossos corações, seus sentimentos despertos, seus desejos dormentes. O meio do dia divide o que temos por dentro, muda o dia por inteiro, muda tudo do seu jeito. Conta histórias diferentes, traz o fim de muita coisa, traz de volta muita gente. Divide nossa rotina como se fosse a noite e seus perfumes de travesseiro. O meio do dia é fator de movimento.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Brincadeira

O que é, o que é? Que faz o que bem entende com quem não entende nada dessa coisa de viver em harmonia com tudo o que existe? É o egoísmo acobertado que recobre suas vítimas com fantasias disfarçadas de brincadeiras infantis.

O que é, o que é? Que leva para guerras infundadas quem só quer sossego depois de horas e mais horas de trabalho? É o medo exacerbado do fracasso fabricado por mentes tão dementes que desaprenderam o sentido único da verdade.

O que é, o que é? Que faz como se fosse aquilo que se esquece de tudo o que acontece nesses dias que correm tão depressa? É a pressa pela fuga almejada das rotinas que engolem as horas necessárias para que tudo seja feito.

O que é, o que é? Que finge que engana a quem engana a si mesmo, fazendo jogo duro contra a razão e o bom senso? É a falta de bom senso que persegue o tempo inteiro todos aqueles que desejam, simplesmente, fazer a coisa certa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Carne

Nos debatemos na insana luta diária que criamos. Como se debatem quaisquer seres fora de seus elementos. Como se debatem as criaturas que não enxergam mais os criadores. É enfrentando nossas próprias criações que nos vemos perdidos, como se não fôssemos mais suficientes para manter suas existências.

É a tortura da rotina que leva nossa carne à traição, porque nossas rotinas demandam carne, não coração. Demandam prazos, ao invés de duração. São construídas para a demanda, não para contentamento. Somos prisioneiros da distorção que emprestamos ao nosso endeusado conhecimento.

E nos esquecemos das voltas do mundo, e do tempo que se encurta. Ignoramos as correções que estão a caminho para corrigir nossos desmandos. Não há ação sem reação, não há falha sem solução. Não há como fazermos o que quisermos sem que haja uma consequência. Não há futuro para nossa inconsequência.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Auto pressão

A pressão é grande, todos os dias, consumindo às vezes horas, às vezes virtudes. Seus pesos entortam as forras, aprisionando as forças da vítima. A pressão age em silêncio, esgueirando-se entre obrigações e responsabilidades, espremendo as vontades dentro do peito. Espalha-se nas vidas como se fosse inocente, e muitas vidas mudam muito, às vezes até para sempre.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Condições

Estamos todos com os sacos muito cheios. São as tralhas que encontramos, e às vezes recolhemos, pior quando as guardamos. E nesses pesos tão pesados vivem tanto os inocentes quanto os condenados. Vivem as bagunças das famílias, as pessoas esquisitas. O bilhete premiado, o prêmio indesejado. Tem de tudo nesses sacos: pequenos micos, grandes sapos. E outros bichos que não queremos nem lembrar dos nomes, de tão chatos que eles foram.

Estamos todos com muitas coisas a fazer. Fazemos o possível com tantos mortos e feridos, exilados tão temidos. Reações exageradas, paixões desenfreadas. Tudo junto sobre os ombros, tão diferentes do que sonhamos em noites de outros tempos. E, às vezes, nem faz tanto tempo assim. Mas vamos andando na corda bamba. E, como segurança, apenas uma corda no pescoço.

Quatro e quinze

Do parapeito da janela dá pra ver a cidade, as pessoas, as luzes, as sombras. Dá pra ver os carros e os prédios. A euforia e o tédio. O movimento de tudo o que se movimenta, e de tudo que permanece estático. Estático por natureza, estático por necessidade.

De cima do telhado dá pra ver os pipas e suas linhas, que cortam como se fossem feitas de vidro moído. Dá pra ver a criançada correndo os perigos, nas vielas e avenidas, como se fossem nós mesmos diante da idade temida. Tememos a volta, mais que a partida.

De longe dá pra ver quão longe estamos do que está perto de nós. E dá pra ver que nós é que somos os cegos tentando desatar esses nós. Os nós que nós damos em nossas vidas, fazendo delas as rotinas que nunca mais nos deixam em paz.

Do paralelo desse mundo dá pra ver o quanto ainda engatinhamos, mesmo nos assuntos mais simples, pelo simples fato de estarmos presos a nós mesmos, desde o primeiro calendário.

Do espelho dá pra ver quantas tentativas já fizemos, enquanto nossos traços vão mudando, sofrendo os efeitos da física das rotinas. E não podemos desistir.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Óbvio

Óbito da dúvida, o óbvio é o que arrasa nossa cegueira quando estamos tão certos de nós mesmos e de nossas vidas. O óbvio é que não temos controle sobre muitas coisas, como pensamos ter. E é a falta de controle o que obviamente nos assusta, porque não aprendemos ainda a lidar com nossas fragilidades.

Passamos anos peneirando, ou tapando o sol com a peneira, criando mecanismos de defesa, rotas de fuga, desvios ou atalhos. Passamos anos em divãs, cadeiras, cadeias. Passamos nossas vidas livres dentro das prisões voluntárias que herdamos ou criamos, nos preparando. Mas, na hora H, falhamos.

Falhamos na tentativa de buscar fora o que está dentro, porque o que está dentro de nós, morremos de medo de colocar para fora. Mas, uma hora ou outra, obviamente teremos que decidir se vale a pena continuar correndo em círculos atrás do próprio rabo. É óbvio que, uma hora, chega a hora para tudo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Resistência

Um dia depois do outro, e outro, e mais um, como peças de um quebra-cabeças cheio de rotinas e mesmices, surpresas planejadas e bizarrices. A alienação viaja em satélites até alcançar os miseráveis, e a miséria continua assolando a todos, sem se incomodar com as contas bancárias.

É o mais do mesmo diário com que lidamos com forçada disciplina. É o sistema que toma a maior parte da força de que dispomos, o sistema que insemina, dissemina, desdenha e elimina. É o monstro que alimentamos e levamos para passear, solto, confortável, fiel, indesejável.

Uma noite depois da outra, e outra, e mais uma, e nos céus escuros viajam nossos sonhos sofridos, nossos desejos mais profundos, desaparecendo à luz do sol que nasce e nos coloca de volta no transe. E vamos levando, tentando tirar proveito de tudo o que disfarçadamente nos faz bem.

É o tudo ou nada diário que nos desafia, enquanto nos enfia goela abaixo seus venenos de enxaqueca e azia. É a nossa obra-prima, primando pela eficiência em nos consumir gradualmente. Seu trabalho é eficiente e metódico. Mas ainda há quem resista, quem se revolte, quem não se dobre.

É aí que reside a esperança.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Respiro

Se tudo parece perdido, se nenhuma direção parece ser a correta, se as portas parecem fechadas, se as forças parecem esgotadas, talvez seja hora de deixar tudo pra lá. Talvez seja hora de deixar que as coisas aconteçam por si próprias. Nem sempre vale a pena forçar uma coisa ou outra, porque quando algo é forçado, geralmente se quebra. E, uma vez quebrado, se desfaz. E uma vez desfeito...

Pode ser que quando as situações se apresentam insolúveis, intratáveis, amargas, a vida esteja apenas pedindo um minuto de atenção, pode ser que a mente esteja suplicando por algum tempo de reflexão, pode ser que alguém esteja querendo lhe dizer algo, lhe mostrar algo ou, simplesmente, ajudar. Olhos turvos não enxergam, copos cheios não comportam outra dose, mentes cheias são incapazes de pensar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mantra diário

Nós vivemos felizes os dias de nossa abundância, e não nos importamos com a escassez que deixamos, como sobras, para os outros. Os outros, que percorrem pelas ruas os caminhos longos e frios, secos e sujos. Os outros, que sonham dias perfeitos, deitados em travesseiros e camas de concreto, aquecidos por mantas de papelão, sob um teto que é qualquer céu que se apresente.

Nós vivemos felizes as noites de nossa ganância, e não nos incomodamos com os odores que nossos muros, grades, portas e janelas mantém à distância. Uma distância segura, que colocamos entre a nossa sede de querer sempre mais, e de ajudar sempre menos. Uma distância entre nós e as histórias anônimas que vagueiam sem rumo, sem rosto, sem banhos quentes ou roupas sem rasgos.

Nós trabalhamos duro e achamos que merecemos tudo o que temos. E o que tivermos além disso, também é muito justo, pois o nosso suor vale dinheiro. E o nosso dinheiro é sagrado, pois vem do cansaço de dias insanos, de vidas incompletas, relacionamentos frustrados, orgulho e soberba. Achamos que merecemos o que temos, e não precisamos dividir com desconhecidos.

Somos, no fundo, infelizes.

domingo, 22 de agosto de 2010

Limites

Testamos nossos limites no dia a dia, mesmo contra a vontade, conta tudo e contra todos. Nas amarguras de quem está acima, nas desventuras de quem está abaixo, nos tropeços e acertos de quem está ao nosso lado.

Testamos nossos limites ao acordar pela manhã, perdidos entre tantos afazeres ou tão poucas coisas a fazer. Sobrevivemos a noites de insônia ou pesadelo, sonhos bons, projetos, realizações, o que passou, o que está por vir.

Testamos nossos limites contra os limites das pessoas, sejam elas as que amamos ou quaisquer outras. Falamos, gritamos, sussurramos, depende de quem nos ouve, depende de quem nos fala. Somos uns entre muitos.

Testamos nossos limites contra nós mesmos, em nossa teimosia, em nossa insistência. Em nossa desistência, em nossa complacência. Testamos nossos limites nos muitos erros e pouco acertos.

E vai indo a saúde. E vai indo a sanidade. E vai indo o esforço. E vai indo o conteúdo...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Oração das seis

O valor do trabalho, a labuta diária, a obsessão pelo atalho, o medo da falha. Enterre o passado, seja feliz, a hora é agora, o especialista é quem diz. O importante é o resultado. Eis o supremo juiz.

E o valor de tudo isso, do suor sem respeito, é o horário apertado, é o aperto no peito. É a dor de cabeça, as crianças sozinhas, tão independentes, tão bonitinhas. Tão solitárias, brincando sozinhas.

O que enobrecia agora empobrece, o sentido da vida agora apodrece. São números, reuniões, relatórios. É a escravidão da liberdade moderna tornando o que temos lá fora apenas mais um acessório.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O relógio faz tic-tac

A prisão à qual nos condicionamos ao longo dos anos, essa que não tem paredes ou grades, essa que não tem vigias em seus muros. Sim, essa prisão da qual é impossível fugir mesmo seguindo os planos mais mirabolantes. Esse nosso lugar comum, ponto de encontro de egos e desesperos. Essa prisão nós criamos com muita esmero.

Um esforço desgastante e contínuo, embora sedutor e canalha. Um primor de engenharia, onde celebramos em ritos a nossa ignorância sem tamanho. É nessa prisão que escolhemos viver, com nosso comportamento de vírus. E dessa prisão, é difícil sair.

Agora, na mudança da maré, ao sol de novos dias, existem aqueles que tentam ir além dos muros, para longe dos faróis de busca. Uma tentativa de obter a liberdade mesmo num momento tão tardio. Mas o esforço é grande para calar estes quase ex-prisioneiros.

Nas páginas dos livros da matéria-mestra estão escritas as linhas que determinaram o nosso presente, que se esforça na tentativa de condenar nosso futuro. Basta ler com atenção para perceber que tipo de erva daninha nos tornamos desde o início.

E todos nós acreditamos em controles, de diversas formas. E tentamos obter algum controle, pois sabemos que isso existe. Pois se existe, então algum controle existe sobre nós e sobre todas as coisas, já que é ilógico pensar que tudo é obra de mero acaso.

Pensando assim fica muito claro que, de tanto forçar as coisas além de nossos próprios limites, é inevitável um rompimento. É inevitável que passemos de atores a platéia, assistindo aterrorizada o ruir dos muros que nos prendem. Nos sentiremos ameaçados sem os muros e as grades. E não saberemos o que fazer com tamanha liberdade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Incentivo a mim mesmo

Existe vida além da obrigação diária de nos prendermos às regras de um sistema que nos consome em desperdício. As amarras dos horários restringem a mente, que nem sempre consegue funcionar sob as mãos repressoras das minúsculas janelas de tempo que criamos para nós mesmos.

Prazos um pouco maiores e um relaxamento nas regras certamente acarretarão num melhor aproveitamento intelectual, favorecendo o senso crítico. É preciso que se tenha consciência de que não vivemos dentro de uma linha de montagem, não somos mecanizados.

As criações humanas devem objetivar nosso bem estar, e não selar nossa escravidão, como tem acontecido. A mente humana é instrumento de produção incessante, mas não é máquina: necessita liberdade, tempo. Estes são os ingredientes dos sonhos, que por sua vez são as sementes das grandes realizações.

Num mundo tão inescrupuloso e competitivo, a rapidez é importante. Mas nenhuma construção resiste ao tempo sem que sólidas fundações a sustentem.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sem horas de sono

Uma boa noite de insônia, olhos abertos sem sonhos, abertos ao vazio. O vazio da criatividade que se desespera, restrita em sua prisão. Uma voz que se cala, sem escala, sem nota. O passado que arde nos labirintos da imprecisão.

Um dia de labor glorioso e cansaço ingrato. Dores nos músculos, articulações e nervos. Sintomas de horas que não passam no descompasso dos ponteiros do relógio. O insistente desconforto entre uma e outra refeição.

Tempo calado com coisas inúteis, viajando em futilidade sem doação. Desperdício de talento, impaciência e decepção. As horas de oração, passadas em imagens desconectadas da realidade, amor sem reflexão.

Sopra o vento na janela e geme a noite escondida nos espaços que nos separam, matéria escura que nada liga, passe de mágica passageira e ilusória. Não há conforto para o corpo que não responde ao que é bom.

Traçados, planos de conquista e redenção se rendem ao infortúnio da solidão, escorregam pelos dedos de um destino sem sentido, mergulhado em confusão. A Lua se despede do apogeu e descende agora sem direção.

Amanhece o dia, mais um dia, destituído de emoção. Há muito que fazer, mas a vontade nesta morada não mais reside, abandonou. Levou em suas tralhas tudo a que renunciou. A vida prática, tão errática, se espalha pelo chão.