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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nossas metades

Ela passeava distraída quando se viu mais jovem, atravessando a rua em passos saltitantes, de mãos dadas com um namoradinho. Cabelo preso na nuca, olhava pra tudo, pra todos. Divertia-se em sorrisos e olhares, o jeito jovem de observar essa vida. Seus passos escreviam histórias que, mal sabia, seriam vistas e lidas por transeuntes estranhos, que ela nem sonhava que um dia conheceria.

Então lembrou-se do jovem sorveteiro, que vinte anos depois ainda vendia ali seus sorvetes. Lembrou-se do dono da venda, onde agora ela comprava as coisas que sua mãe costumava comprar. E percebeu a padaria da esquina, que mudara de nome e de dono, mas que ainda era a padaria da esquina. Lembrou e reviu muitas coisas no turbilhão provocado pela visão dela mesma mais jovem.

Agora, ela sabe que precisa trocar a saia que comprou, mas que veio com defeito. Entrou na loja, no seu velho bairro, seu bairro de sempre, e fez o que tinha que fazer, pensando no que compraria no supermercado. Lembrou que era sexta-feira, dia de lanche no jantar. Fez tudo o que tinha que fazer e foi caminhando tranquila de volta para casa. Na esquina, viu-se novamente caminhando mais nova, e chamou alto sua filha: vem, vamos pra casa!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Banco de dados

Entender os vivos é estudar os mortos, porque os mortos deixam suas marcas para a vida que continua. Deixam linhas, entrelinhas, passos, anotações. Deixam pegadas, linguagens, recordações. Deixam tudo o que é preciso para que o fluxo continue, ligando o visível ao invisível, ensinando que a morte não interrompe o curso de nada, apenas transforma o Todo. 
 
Entender o passado é corrigir o presente fazendo tudo diferente. Exatamente como acertar a lição seguindo o exemplo, como ensinaram na escola, nos tempos em que as distrações não eram tantas. No tempo em que muitas distrações de hoje ainda não se disfarçavam de responsabilidades. Entender o passado é enxergar que nem tudo, hoje, é realmente necessário.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Herança

Gargalhadas, surpresas, abraços, beijos, conversas, silêncios. Lágrimas, tombos, cortes, raspões. Loucuras, rompantes, impulsos, erros, acertos. Carícias, carinhos, respirações, músicas, danças. Roupas, fantasias, disfarces. Travesseiros, lençóis, cobertas. Enfeites, presentes, lembranças, fotografias. Amores, paixões, rivalidades, indiferenças, saudades. Ganhos, perdas, chegadas, partidas. Refeições, bebedeiras, sobremesas. Avenidas, ruas, estradas, esquinas, trilhas. Mares, rios, cachoeiras. Férias, trabalhos, estudos, colegas, amigos. Aventuras, sustos, perigos, conflitos, pazes. Famílias, sossegos, passeios, sóis e chuvas. Vidas e mortes, mortes e vidas. Idas e vindas. Isso e muito mais: tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que vai ser. Sempre, pra sempre.

Soma

Cada olho, uma janela. Cada boca, uma porta. Cada ouvido, um confessionário. Cada corpo, um templo. Cada templo, uma história. Cada história, uma repetição. Cada repetição, um aprendizado. Cada aprendizado, uma vitória. Cada vitória, uma união. Cada união, uma nova história. E toda história se entrelaça, com sutileza, fingindo acaso. Aumentando ou diminuindo o tamanho do mundo como se esse fosse mesmo flexível, e inteligente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Assimétrico

Entre tantas páginas em branco, entre tantas linhas vazias, entre tanto espaço entre planetas, entre tantas ruas, casas e rostos. Entre tudo o que não se vê ou se toca. É lá. É lá que está.

A nova fase, o novo abraço. O novo afago, o novo novo, a nova história. É lá que ela mora, no vazio, entre todas as coisas, entre tudo o que somos e tudo o que fazemos. Ou não.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Eu vi

Eu vi que entre nós existiu de tudo, do pouco que tínhamos para dar um ao outro, em nossos momentos de vida tão diferentes. Eu vi que servimos para muitas coisas, sobre as quais não falamos mais, porque os encantos do esquecimento são mais sinuosos que os da lembrança. Eu vi que fomos perfeitos, pelo menos durante algum tempo, exatamente o tempo que precisávamos para destruir o que, com nosso suor, havíamos começado a construir. Eu vi que somos assim, eu e você, e todos os outros, no íntimo do íntimo, porque no íntimo somos todos apenas humanos.

Por isso eu não mais me culpo, nem culpo a você, nem a ninguém. Porque eu vi que vivemos o que víamos naqueles tempos, com nossos olhos, nossas consciências, semelhanças e diferenças. Isso acontece com todos, no fim somos todos iguais, e isso não é crime, de forma alguma. É apenas um fato, dentre tantos que vemos, todos os dias. Eu vi que é muito melhor desse jeito, porque se fosse de outro, viveríamos nossas vidas inteiras sem sentir o sabor de aprender. E eu vi que, na essência de tudo, o tempo é um grande aliado, fazendo de cada fim um novo começo.

A história de todos nós

A história de todos nós é a história que se repete, de tempos em tempos, com seus tempos em espirais e círculos, ciclos, repetições e novidades. É o que contamos nas barulhentas rodas de bar, nas silenciosos momentos de intimidade, no trabalho, em casa, em todos os lugares. A história de todos nós é repleta de vitórias e fracassos, acertos e falhas, escolhas e fatalidades. É tudo o que somos, é tudo o que nos trai quando tentamos esconder algo, é tudo o que guardamos em fotos e fatos.

A história de todos nós é a coluna de sustentação da Grande História, que nos fascina com seus heroísmos e anonimatos, eternizando todos os nossos momentos. É a herança que recebemos e deixamos, para nós mesmos, para todos, para o Todo. A história de todos nós é morada de sonhos sonhados, realizados, interrompidos, esquecidos. É nela que jazem batalhas, conflitos, laços, amores. É o começo e o fim de muitas jornadas. É o parágrafo e o ponto final. E, para cada fim, é o recomeço.

Nossas histórias estão entrelaçadas, como amantes detalhistas e precisos, viciados no durante e receosos a respeito do clímax.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Antes de qualquer coisa...

Antes de me crucificar, pense em todas as coisas que você fez e que lhe pesam na consciência, se você tiver consciência. Antes de me pedir coisas absurdas, pense em quantos absurdos você se meteu e deles saiu só. Antes de partir, pense em quanto você já deixou para trás e quanto você espera encontrar adiante.

Antes de dizer que a culpa é minha, pare em frente ao espelho e pergunte ao reflexo quantas vezes você já fez isso. Antes de se condenar, tente descobrir quem está sentado na cadeira do réu, quem está na cadeira do juiz, e quem faz parte do corpo de jurados. E tente descobrir sobre o quê fizeram seus juramentos.

Antes de qualquer coisa, pense em todas as coisas, pense em todos os momentos, pense em tudo o que você sonha, deseja, almeja. Pense em todas as pessoas que lhe cercam, e a importância de cada uma delas em sua vida. E pense, com muita seriedade, sobre como você poderá estar, ou se sentir, depois de tudo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Verbo Ser, verbo Haver

Houve mesmo verdade nos momentos em que fomos sinceros e irredutíveis? Houve mesmo verdade no fio da navalha em que caminhamos, indo e vindo, numa brincadeira de criança que ainda não descobriu para que serve a pólvora? Houve mesmo algo de real no sonho que gostamos de descrever aos outros? Fomos ambos, realmente, meras vítimas? Houve mesmo tudo aquilo que dissemos? Ou foi tudo resultado das disputas pelo poder de comandar algo que nunca precisou de comando? E que nunca precisou de força...

A não ser a força diária, o esforço diário em busca de um fim comum, um objetivo de vida, uma vida em comum. Entre todos os que respeitamos e nós, que somos como eles, e outros, e todos. Todos iguais, sem diferenças, nem mais, nem menos. O esforço diário é para termos o que comer, onde morar e se aquecer. A luta diária é para que estejamos todos juntos, unidos pela diferença e não separados pelas falsas igualdades. A luta é pela cumplicidade do silêncio, e não pelas palavras gritadas, impostas, mordazes. Nunca foi preciso força...

Erramos... e não entendemos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Em Dó maior

Se o que temos entre nós são palavras, eu me calo. Porque eu não quero mais que as palavras tornem-se indispensáveis para nossa boa convivência.

Se o que temos entre nós são aparências, eu fecho meus olhos. Porque eu não quero mais usar meus olhos para enxergar somente o que desejo.

Se o que temos entre nós é comodidade, corto meus dedos. Porque nesses tempos tão sombrios nem todo elo é ligação mas, sim, correntes.

Se o que temos entre nós é um preço injusto, eu queimo meu dinheiro. Porque eu não quero mais ser cobrado pelas contas que já paguei.

Mas, se o que temos entre nós é o que eu penso que é, estou disposto a ir adiante. Porque nosso tempo está passando no movimento dos ponteiros.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Longas

Os longos caminhos, as estradas estreitas, as pedras tão secas, bancam espinhos. A jornada termina onde o fim recomeça. O fim e o começo são gêmeos siameses ligados ao tempo, e que não entendemos. Mecanismos complexos de simplicidade excêntrica, equações desconexas desnudando a inocência.


O que foi sempre seu termina onde começa o que é dos outros, e aos outros não importa se nos importamos com o que pensam. O que pensamos é nosso, nosso pobre sustento, e vivemos a vida vivenciando momentos. Pedaços quebrados da obra completa que chamamos de simples coincidência.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Filiação poética

As ruas, vielas, encruzilhadas. Estradas, caminhos. Passos esquecidos, distantes no tempo. Foto apagada, folhas ao vento. Céu de outono, inverno adentro. Primavera e verão, verão os efeitos dos verões que se foram, guardados no peito. E no peito sussurram corações sedentos de paixões e ensinamentos sobre o que se foi, o que está sendo, e o que será de tudo que existe neste mundo imperfeito.

As pedras, pedrinhas, rochas, montanhas que rasgam os horizontes. Com cumes agudos, gastos, distantes. As velhas fronteiras de antes, demarcadas por sonhos e chances, tentativas e erros, acertos, levantes. A bagagem que enverga as costas do viajante. Noites veladas pelas estrelas e luas, crescentes, cheias, minguantes. Um minuto se passa, então outro, e mais um. O tempo é nosso amigo em comum.

E pelas frases escritas em paredes, papiros, folhas. Rolos de filme, garrafas e rolhas, a jornada será longa. Cheia de encontros, pontualidades e atrasos. Marolas e ondas. A areia da praia nos separa de vidas diferentes, de formas diferentes, ao sabor das brisas, dunas brancas e lisas. Indo e vindo ao sabor do acaso, da agulha da bussola, da vela estendida. E depois dessa lida, outra vida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Terças são chatas

Voltar pode ser uma coisa boa, uma grande satisfação. Pode trazer de volta tudo o que era bom e bonito. Voltar pode ser um analgésico para dores insistentes. Pode ser um conforto muito bem vindo para um corpo cansado de andanças e provações, como um tapete limpo onde podemos esfregar os pés descalços.

Voltar pode também ser um grande erro, pois às vezes é preciso seguir em frente e deixar certas coisas para trás. Nesses casos é preciso encontrar a fórmula correta para que o passado não seja peso, mas apenas um tempo que se foi. É uma fórmula difícil de encontrar, por isso muitas vezes o peso já está sobre os ombros antes mesmo que se possa percebê-lo.

No final das contas, nada volta, nada é da mesma maneira, por mais que tudo pareça igual. Pode ser que a casa permaneça igual mesmo depois de um longo tempo de ausência, mas nós certamente estaremos diferentes. Então pode até ser que isso não seja voltar. E pode ser que o simples ato de voltar não exista.

Continuar...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Nossas histórias, e nossos tempos

Nós perdemos tempo tentando encontrar o significado das coisas, para termos a certeza de que sabemos o que estamos fazendo. Nós perdemos tanto tempo com isso que nos esquecemos de viver.

Viver é entender o que vivenciamos, com intensidade, serenidade e profundidade. Mas o que fazemos é o inverso. Apenas planejamos. Planejamos a felicidade para a velhice, e o que é bom vai ficando para trás a cada segundo que jogamos fora.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Desconcerto

Se eu fosse mágico, teria mudado muitas de suas decisões a meu respeito. Teria mudado sua visão com relação ao meu orgulho e minha soberba. Teria te mostrado o outro lado da minha moeda, o lado certo. Se eu fosse mágico, teria dado vida às flores que nunca te entreguei.

Se eu fosse um pintor, teria te ensinado como misturar minhas cores, luzes e sombras. Teria te explicado meus rascunhos, provas e ensaios. Tentaria te fazer enxergar arte nos meus rabiscos infantis. Se eu fosse um pintor, eu poderia ter me desenhado melhor.

Se eu fosse um cientista, poderia ter inventado meu próprio manual, para que você pudesse ler e então não se assustar com meus intrincados mecanismos. Se eu fosse um cientista, eu poderia ter detalhado tudo aquilo que eu sentia enquanto você dormia.

Se eu fosse um intelectual, teria te convencido de que eu não estava totalmente errado em tudo o que eu fazia. Poderia ter acrescentado um pouco de naturalidade à paixão desenfreada que eu vivia. Certamente isso teria feito uma grande diferença.

Se eu fosse um camponês, tudo teria sido mais fácil, porque eu saberia onde arar, quando plantar, como regar, como cuidar de algo tão frágil como só um amor tão intenso pode ser. Se eu fosse um camponês, teria feito desse amor o meu sustento, e não meu desalento.

E, se eu fosse tudo isso, teria sido capaz de fazer tudo certo e muito mais. Teria sido capaz de entender e não julgar, e ser julgado sem me importar. Teria tido paciência, humildade e resignação para aceitar tudo o que um dia eu achei que merecia.