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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Real(idade)

Nos sonhos reside o real, vestido de névoa fluída, aguardando o final. Ansioso pelo início preciso, já vem pronto e conciso. De todos os passos, deseja só o primeiro. Deste ponto em diante, seu caminho é certeiro.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Imaginário real

Os limites colocados adiante, são apenas colocados. Eles não estão lá. Mas estão. Estão para testar até onde vai, qual o limite. Testar de onde vem, se vem de lá, de dentro, de fundo. Testar que tipo é, se é do tipo que faz tipo, ou se é puro. Puro.

Os limites vistos adiante, são apenas vistos. Não são sentidos. Não podem ser sentidos se o sentido diz que sentido deve ser seguido. E não podem ser maiores, se a vontade é maior. E nada é maior do que a vontade que flui do lado esquerdo.

Os limites ditos adiante, são apenas ditos. Já ficaram para trás assim que foram ditos, porque já não estão mais dentro, foram embora nas palavras. Foram embora no sopro, no cheiro, no abraço, no beijo. No respeitoso silêncio do vento.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Degelo

De onde vem, ninguém sabe, mas vem. Vem e toma conta, preenche os espaços, corre no sangue. Passa por todos os caminhos que existem por dentro, melhora o humor, aumenta a paciência. Transforma qualquer rotina em surpresa. E se reflete por fora, de formas diversas. Relaxa as feições, altera o andar. Faz roupas guardadas voltarem ao corpo. Faz do passado apenas passado, tornando o hoje o primeiro dia do futuro.

Quando vem, ninguém sabe. Mas vem, mesmo sem hora marcada. Uma vez notado, é tarde demais. Como se estivesse lá o tempo todo, desde sempre, tão perfeito é o encaixe. Lembra os difíceis quebra-cabeças da infância, com suas infinitas trinta e seis peças, que tantos sorrisos desperta, quando tudo finalmente se encaixa. A hora em que chega é sempre a hora certa, porque nunca se adianta, e nunca se atrasa.

O que é, todo mundo sabe. E mesmo quem não sabe, descobre rapidinho. Intui de alguma forma medrosa que é isso mesmo, isso que tanto se esperava. E não adianta procurar empecilhos, problemas, defeitos. Porque, no final das contas, é simplesmente perfeito. É tudo o que disso se espera, porque toda espera é sempre longa demais, a ponto de cansar e fazer pensar que isso não existiria mais. Mas existe, e é o que é.

Vem de onde nunca saiu. Chega na hora marcada. E é o que se imaginava exilado. É o amor.

Ou é isso, ou é aquilo

Fala-se sobre o amor, fala-se muito, fala-se demais. Conta-se histórias, contos, lendas. Teorias. E pouca prática. E dá-se ao amor armas, como se fosse possível levá-lo às batalhas para ferir aos iguais, deitar ao chão os inimigos, trair os amigos. Desafiar, desfazer, desmanchar. Como se fosse mesmo instrumento de terror, ou moeda de suborno.

Pensa-se o amor como se fosse possível submetê-lo a desejos tolos, destituídos de profundidade. Ou de importância. E espalha-se o rumor de que o amor pode destruir lares, famílias, amizades, outras coisas. Mas que destruição pode trazer o amor às coisas que diante dele sucumbem por falta de alicerces? Que culpa tem ele se é mais forte que todo o resto?

Vive-se a paixão como se fosse amor, mas amor ela não é. Pode ser que seja o começo. Mas meio ou fim, não é capaz de ser, porque não se sustenta sozinha: morre rápido se não gera seu próprio sustento. E seu sustento deve sustentar não apenas a si mesma, mas também aos corações que escolhe como morada. Senão, morre farta de si mesma.

Aos que se enganam

Aos que se enganam, a notícia é de derrota, crise, problema. Mas não há problema, crise ou derrota capaz de enganar ao bom coração. O bom coração permanece forte mesmo quando o dão por vencido, mas este vencido não está até que soprem o final da partida. E a partida, na verdade, ainda nem começou...

sábado, 12 de novembro de 2011

Três é demais

O mestre vem e ensina, deslizando seu giz suavemente sobre a lousa, em palavras, desenhos e cálculos, tão exato e tão humano. E tão biológico. Cheio de sabedoria sobre as certezas das quais duvidamos, quando escolhemos nossos atalhos tolos, nossos caprichos vazios, nossas escolhas infantis.

O mestre fala e explica, com palavras poucas, a verdadeira natureza das coisas: as falsas verdades que inventamos nos sonhos em que rolamos soltos, pensando que a coisa certa está sendo feita, quando na verdade, a verdade é outra. É redondamente o contrário do que pensamos que sabemos.

O mestre demonstra e corrige, com exemplos levíssimos, a conduta tão sublimada de enganos que somente um sol de deserto inclemente é capaz de produzir. Os desertos que temos por dentro, enganam tanto o guia quanto os viajantes, matando todos de sede, mesmo com o oásis adiante.

O mestre aconselha e encaminha, para que os erros não aconteçam de novo. Mas sabe que o erro acontece, e é quase inevitável, porque os alunos esquecem de tudo quando é chegado o momento da prova. Safam-se apenas os que erram de menos. Esses são os que não só estudaram, mas aprenderam a lição.

O mestre da escola é o Tempo, e sua matéria é a História.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Liberdade

A verdade voa certa, voa reta. Seta que fere, depois liberta. Quebra as correntes, desfaz as amarras. Traz de volta ao caminho certo as histórias erradas. Esclarece o coração no idioma correto, faz cair as paredes que pareciam concretas. Remove a sombra, descortina a descoberta.

A verdade lava a alma, desfaz o feitiço. Traz o fim das dúvidas do início. A verdade, quando fala, cala as bocas que iludem, quebra as pernas dos espertos. Tira-os de perto, de volta à suas casas. Limpa a imundície que confunde e abre caminho para o que interessa.

Amores elementares

O amor da terra é a semente. O amor da água, o sustento. O amor do fogo é o calor. E, o do ar, o movimento. O amor humano é o beijo, que no silêncio diz tudo ao coração.

domingo, 18 de setembro de 2011

Desfibrilação

O que fala ao coração é o silêncio, o respeito, o caráter, a intuição. O que fala ao coração é o que não se ouve por aí. Não é rumor, não é notícia. Não é o vazio, nem a malícia. O que fala ao coração só pode vir de outro coração, senão é só ruído, nada que prenda, realmente, a atenção.

O que fala ao coração é a dedicação, é o carinho. É o querer bem, é o fazer bem o que melhor se sabe fazer. O que fala ao coração é quase nada do que temos a dizer. É quase nada do que tanto desejamos, é quase nada do que temos. É quase nada do que realmente percebemos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cardíaco

Não é o dia que está triste por estar cinzento, porque estar cinzento é das naturezas dele. E ele nunca se entristece por ser ele mesmo, não importa como seja. Quem se importa são os outros, os que pensam... Que pensam. Eles ficam tristes, porque acham que é complô da escuridão se encontrar com a luz pra formar o cinza. Ou vice-versa. Vice-versa?

Não é o vento que está frio, porque ser frio é das naturezas dele. E ele, como o dia, passa feliz. Por que? Ainda não aprendemos a ler o vice-versa que nos versa tanta ilusão. As naturezas só falam ao coração. Mas pobre do coração, que resolveu nos emprestar os ouvidos... Que tal dar-lhe de volta os ouvidos para que voltemos a ouvir sua razão?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Diferentes vazios, diferentes silêncios

Quando se está vazio, o vazio já não assusta mais. Ele fica pra depois, pra quando nos enchemos de nós mesmos outra vez. Mas, enquanto isso, o intervalo é de paz, a paz tão difícil de conseguir num mundo tão difícil, entre tantas ilusões, entre tantas distrações.

Quando se faz silêncio, o silêncio já não assusta mais. Ele fica preso nos ruídos que ficaram para trás. Pelo menos até que voltemos a dar ouvidos ao que não deve ser ouvido, até que percamos novamente a concentração. E isso, num mundo tão difícil, é fácil de acontecer.

Quando fazemos um esforço, por menor que seja, a dificuldade já não assusta mais. Isso abre portas, revela caminhos, traz novo brilho ao que era velho, torna velho o problema. É preciso apenas estar vazio, e absorver a novidade. E é preciso fazer silêncio, para ouvir a voz do coração.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sobre dores no peito

O que faz doer o coração não é a dúvida, e sim a certeza, porque a certeza não traz esperança. Não traz nada além de si: o fato, que nos deixa fartos de sua fria existência, despertando as revoltas que carregamos de tempos passados, que não passamos a limpo, apenas deixamos de lado.

O que faz doer o coração não é a dor em si, mas o golpe. A pancada que apaga o norte, a pontada que perfura a sorte que imaginamos viver. Mas a dor que dói no coração, se não nos mata, é a que nos faz acordar do sono fingido da razão, que só faz consumir o que precisamos viver de bom.

Sensações

Se todo beijo fosse o primeiro, não haveria lugar para o último. A mesma coisa seria com o passo, o desejo, o conforto, o abraço. Os amores, os laços. O começo de tudo o que é novo, a renovação de tudo o que é velho. A sensação de voltar para casa, e ter alguém à espera.

Se todo olhar fosse o primeiro, não haveria lugar para o último. E não haveria mais despedida, lágrima, soluço, chance perdida. Já seria o bastante para melhorar bastante essa vida. Se não houvesse mais o último, o primeiro seria, para sempre, o único tema da rima.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Noite adentro

Noite adentro eu penso em você, que está aí para o que der e vier, e que tem tido paciência para tentar entender as loucuras que eu tento lhe mostrar. As loucuras em que nos metemos quando nos percebemos parte dessa massa fora de ponto, que esteve sempre a ponto de colocar um fim em tudo, com suas guerras de todo tipo, para toda ocasião.

Noite adentro eu penso em você e em como tudo ainda pode ser diferente, porque continuar igual é pura perda de um tempo que já não temos, porque tudo o que fizemos até agora foi tentar trocar nosso tempo numa barganha que só enganou a nós mesmos, grandes idiotas que fomos por acreditar que outros aliviariam nossos tormentos.

Noite adentro eu penso em você e nas coisas nas quais acreditamos, e tenho certeza de que, mesmo desacreditados, ainda somos capazes de fazer o mundo crer em nossa capacidade de amar os que já não têm mais lugar para gente como nós em seus cansados corações.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Pffff

Ao invés de gritar, pense. Pense muito bem no bem e no mal que suas palavras diriam. Nem todo silêncio é derrota. Resignação não é desistência. Coloque, acima de tudo, a inteligência que vem do seu coração. Porque na cabeça, temos apenas o cérebro.

domingo, 5 de junho de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

Idioma

O idioma do amor é o silêncio. Porque o som das palavras distorce as linhas retas e corretas de algo que é perfeito na essência, perfeito na existência. O idioma da paixão é a voz que desespera, a voz que vocifera as inverdades que residem nos vazios que nos ligam ignorando o conteúdo que nos completa.

O idioma do amor é o silêncio. Porque é no silêncio que os olhos enxergam, os ouvidos ouvem, o coração sente. É no silêncio que o trabalho se faz completo, com retidão e comprometimento, exatidão e cuidado. É com muito cuidado que se faz o silêncio, porque é no silêncio que reside o respeito.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Surdez de coração

Nós corremos sobre as linhas que demarcam as fronteiras entre o que queremos e o que fazemos. Sobre as linhas que separam o que sentimos do que demonstramos. As linhas que nos separam da realidade.

Nós desenhamos linhas pontilhadas para limitar nossas possibilidades. Linhas cuidadosas, como pequenos passos, circundando, cercando. Mas nunca indo direto ao que realmente interessa.

Nós fazemos de conta que determinamos limites para afogar nossas imaginadas fraquezas, fantasiando de frieza o que mais nos emociona. E fazemos de conta que funciona do jeito que imaginamos.

Nós organizamos tudo de diversas formas, classificando e catalogando. Impomos ordens a tudo e nos esquecemos de que tudo deve acontecer naturalmente. Vivemos tentando exercer um controle que não existe.

Nós escolhemos aqueles que queremos como aliados ou inimigos, baseados em conceitos que nem fomos nós mesmos que criamos, mas que herdamos. Apadrinhamos ignorância e dela pouco conseguimos nos livrar.

Nós não temos coragem suficiente para cruzar as fronteiras porque nos ensinaram que isso levará à guerra. E não nos tocamos de que nem todo confronto precisa ser armado ou ter sangue derramado.

Nós sonhamos com acontecimentos especiais e com pessoas especiais ao mesmo tempo em que deixamos de ser especiais, porque pode ser que alguém não nos ache especiais. Não nos ensinaram a olhar primeiro no espelho.