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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cinismos propositais

Morreu a musa, bateu asas e voou. E gritou, desgraçada, um grito de garça, irritante e solitário. Morreu sozinha, a filha da puta. Mas foi bem merecido, de tanto desdenhar o esforço de quem só lhe pediu algumas linhas. Que queime então no inferno das novelinhas. Alguns diriam “oh, pobre coitada! Morreu tão jovem...” Ora, que se foda, desalmada. Foi-se jovem, mas foi-se tarde. Bem tarde.

Outros, agora, dizem “as linhas ficaram tortas e as rimas, despedaçadas.” Pois então não leiam, não percam tempo. Não gastem os olhos se não entendem nada. Porque mesmo tortas, as linhas falam. E, se não rimam, também não calam. Morreu a musa, e foi bem velada. E, apesar de tudo, morreu ainda amada. E ela sabe disso, todo mundo sabe. Está bem escrito em sua linda lápide.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Realeza

Ela vem dançando nos ventos, bailando nas nuvens, sussurrando canções de silêncio aos seres que têm ouvidos sensíveis, que ouvem mais do que falam, que falam a língua de um mundo que o mundo deixou de entender.

Ela traz, nas pontas dos dedos, as certezas que falham em nossos peitos cansados de tanto respirar esse ar viciado por fumaça e progresso ao avesso. Ela vem delicada, flutuando nos sonhos que deixamos nos travesseiros.

Ela coloca seus pés descalços na terra, e muitos tremem de medo. Porque sua bruta beleza assusta a quem esperava a suavidade de uma linda princesa. Mas ela é rainha, majestosa Verdade, e não se abala com sua corte burguesa.

domingo, 18 de setembro de 2011

Circensis

No último ato, a última dança, a dança de fato, o movimento das sombras. As sombras que enganam as luzes que falham, as falhas que encantam as sombras que amansam.

Na última trilha, a última pedra. A pedra que calça, de pedra, a linha que risca e rabisca, sempre dançando, fazendo dançar quem vem passando, braços abertos, se equilibrando.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Gramática

De que matéria é feita ninguém sabe, porque o que se sabe é o que todo mundo já sabe. Mas, saber é uma coisa. Entender, é outra.

Tudo o que é bonito, é feminino. É a cor, é a luz. É tudo o que uma curva traduz. Podem vir raios ou trovões, quem manda mesmo é a tempestade.

Substantivo feminino: perturbação atmosférica violenta, ligada aos movimentos verticais do ar. O ar que se respira desde o primeiro momento.

É tudo, o ar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Nuca

É quente, gostoso, envolvente. É névoa que voa nos ventos, pelos topos das árvores, voando veloz e eterno, num eterno raro momento. Existe e inexiste ao mesmo tempo em que seus perfumes ganham texturas. Tão sólidas que vão e que voltam, respiração adentro. E vive em luzes e cores: fortes, vibrantes, calmas, escuras. Carrega consigo o gosto do cheiro, e o cheiro do gosto. E carrega saudade, ansiedade e repouso. É tudo de si, nada de outros.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Rosas e anjos

Nem pediu licença e foi chegando, devagar mas sempre em frente, frente a frente com o que se pensava antes: que isso jamais aconteceria outra vez. Foi chegando e se acomodou, tirou as roupas da mala e fez de outra sua própria casa. Chegou com cheiro de viagem, poeira de uma estrada por onde ninguém mais passava. Chegou ao destino raro, cuja existência vinha sendo, há tempos, ignorada.

Chegou e pôs a mesa, abriu os armários, achou o que precisava. Acendeu o fogo, preparou o que queria, fartou-se da ausência que empoeirava os dias e tomou seu lugar, com solidez e autoridade. Espantou os fantasmas, pôs pra correr os demônios, insinuou seus desejos, obteve suas respostas. Mostrou sua parte da verdade, esticou as pernas e se instalou no lugar que, até então, estava vago.

Boa música

A boa música entra nos ouvidos e segue seu caminho até o coração, que já bate diferente, nos deixa diferentes e nos difere dos iguais. A boa música é como o cheiro de pele que vira perfume, que vira costume, que vira presença, lembrança, saudade. Nos vira do avesso, de pernas pro ar. Nos deixa loucos de oxigênio, roucos de gritar. Nos faz esquecer do que dói tanto lembrar. E nos lembra do que esquecemos: é preciso sonhar.

A boa música toca sempre nos fones de ouvido, porque ninguém mais precisa escutar, escutamos até enjoar, mas não enjoamos e vivemos cantando as letras que falam de nós, falam pra nós, falam pros outros exatamente o que queremos falar. A boa música nos cala quando quer, tem vontade própria e bem nos entende. A boa música é a que nos leva desse mundo para o mundo em que ela reina absoluta.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Inspiração

A inspiração é a transpiração de todos os dias, é o trabalho, a conversa, a pressa, o ócio. É a musa do cotidiano louco que inventamos para nossas vidas, nas idas e vindas e oscilações dos humores. A inspiração é a respiração da alma que não se acalma, nem se cala, nem se conforta diante de tudo o que é estranho para nossas percepções silenciosas.

A inspiração vem da idéia de que nossos ideais podem, de outra para outra, morrer como nós: solitários. A inspiração é apoio para o passo trôpego, é conteúdo para o vazio, é o que nos salva de nós mesmos, ou nos consome em nossas artes cruéis. É o tudo que somos no nada que vivemos, é o nosso refúgio, que finge sossego.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A morte da inocência

Lá estava ela, linda, deitada aos raios da lua, com sua pele nua anunciando a brancura de sua existência à um mundo incoerente. Ela, virgem, tão suficiente a si mesma e tão frágil quanto os finos galhos secos do inverno, receia por sua própria vida, contra a qual atentamos em nossa cega e ignorante violência. Ela, triste, desvia de nós seu olhar ao perceber nossa perversidade. Ela, linda, virgem, quase morta, desliza seus últimos suspiros até que seus olhos se fechem, melancólicos, anunciando o fim de si mesma.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Embarque

Os beijos e abraços que tenho roubado dessa existência são minha bagagem de mão, para manter sempre à mão, e embarcar mais feliz para as terras desconhecidas dos dias que estão por vir. As promessas de futuro não são nada a não ser minha imaginação, que segue fértil, construindo para mim mundos de céu azul e campos com flores, perfumes e cores. As cores que meus olhos não conseguem ver. Os perfumes que me conduzem flutuando. As flores que procuro para meu vaso. O céu azul que me guia aos seus braços.

sábado, 28 de maio de 2011

O vazio do copo cheio

Eu vou lhe contar do meu grande amor, que de tão grande não me cabe no peito, mas o destrói com sua suave insistência em existir. De tão silencioso chega a quase causar dor, mas recua diante do que nunca foi feito, para não me deitar inerte diante do medo de insistir.

Um amor grande, denso e cego, que leva em si tanto o poeta quanto a musa, ambos já cansados de tantos desencontros. E vale tanto quanto entrego, que é bem pouco diante da minha vontade escusa, que é levá-lo à morte antes que ele me esqueça entre seus escombros.

domingo, 22 de maio de 2011

Teia

O tecido da teia é feito de noite, de estrela e de sonho. Brilha sob a luz da lua, chora ao orvalho do amanhecer. Derrete ao sol da manhã e se desfaz antes do meio dia. O tecido da teia é de aranha invisível, sorrateira, irresistível. É de perfume, salto e delicadeza. O tecido da teia é feito de desejo, saudade, vazio. É onde dormimos presos e acordamos libertos. Perambulamos e sonhamos de olhos abertos. O tecido da teia lentamente irrita a pele, coça, forma ferida. O tecido da teia é fêmea. Levemente prejudicial, mas absolutamente imprescindível.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O espinho das flores

O espinho das flores fere os dedos desavisados, ávidos por experimentar a beleza e o frescor de coisas ainda inocentes. Saias rodadas, andares saltitantes, cabelos soltos na tarde de dias incertos. Brilhos em olhares distantes e escuros, que não se importam se os espinhos ferem.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Castelos

Eu vou pintar numa fita um castelo de areia, feito com todas as estrelas do céu, para amarrar seus cabelos que insistem em formar espirais que me tiram daqui, e me levam de volta, e me fazem morrer sem parar de respirar. Vou piscar os meus olhos com força pra saber que dessa vez você não vai sumir quando eu acordar. Vou fazer minhas juras em sagrado silêncio, porque quando eu falo mais alto, parece que ouvem e te levam embora, só pra eu nunca mais sossegar.

Início da noite

O sussurro que vem viajando no vento deita canções de ninar aos ouvidos muito atentos, que esperam o sono, que sonham em sonhar o sonho que todos tentamos sonhar...

sábado, 7 de agosto de 2010

Olhos

Os olhos escondem o sorriso e a lágrima. Escondem o sentir e o pensar. Escondem percepções e idéias, dúvidas e aprendizados. Os olhos podem brilhar mesmo se não houver luz, podem ver mesmo que através de óculos. Podem ver além do que existe. Os olhos se abrem e se fecham mais rápido do que muitas coisas, mas muitas coisas acabam-se tão rápido quanto o piscar dos olhos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Blink

Um intervalo simples, rápido. As palavras flutuam, mas não se fazem ouvir. Os sons se fundem, num fundo calmo que só existe para deixar claro que tudo ainda existe, aqui, neste lugar em que estamos agora. Um olhar, os olhos brilham. A palavra se corta, não são necessárias palavras. O calor se confunde, os perfumes se misturam. Os lábios se encontram. Um intervalo simples, rápido. Um segundo. Um segundo pode ser capaz de valer mais que uma vida inteira.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Outono

O canto de despedida dos pássaros anunciam novos dias, dias diferentes. Os ventos sussurram seus segredos para as árvores, que em respeito mudam suas cores do verde para um tom quase marrom. E, comovidas, choram suas folhas ao chão.

As nuvens movem-se mais velozmente, exibindo-se para a palidez que a luz do sol assume. Os dias tornam-se algo mais curtos, convidando a todos para noites mais claras e frias, para mais abraços e roupas mais aconchegantes e comportadas.

Esse ritual acontece todos os anos, mais cedo ou mais tarde, e não cansa. Há sempre algo diferente, uma luz diferente, um brilho dourado de fim de tarde que nos faz sentir saudades de casa, e de pessoas. Nos lembra um jantar perfumado sobre o fogão.

É a minha estação preferida, sem o calor insuportável do verão, ou as torrenciais chuvas primaveris. Ao mesmo tempo não é desolador como os dias cinzentos do inverno. Tem luz de sol, calor ao meio dia, vento à tarde e frio à noite. É o Outono, mais uma vez.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Minuto

Pode ser silêncio, ou gritaria. Pode ser perdido, pode ser início. Pode ser um fim, pode ser um filho. Pode ser o que vier.

Blocos

O bloco vai passar, com seu som enfurecido e sua multidão enlouquecida, seguindo em passos lentos, fazendo a poeira levantar. O bloco vai partir, já raiou o novo dia, todos já vestem a fantasia, toda a nudez vai desfilar.

O bloco vai pousar, sobre outros blocos e depois virão mais outros, um em cima do outro, outro em cima de um, todos juntos dão forma a um. Um muro, uma fronteira, uma divisão. Um limite para toda a diversão.