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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Natalidade

As crianças, diferentes de nós, cumprem suas promessas, mesmo quando prometem o que não podem. Isso, que elas não podem, só nós achamos que não podem, nas restrições dessas amarras com que a idade nos envolve. Então as crianças podem tudo em suas promessas, mesmo nas mais loucas, como quando prometem jamais nos abandonar na feiura da velhice, dizendo que sim, elas vão voltar, se jogando em nossos braços, para um abraço rápido e eterno, como se jamais as tivéssemos deixado lá atrás, empoeiradas dentro dos baús que escondemos do tempo, o tempo todo, a vida inteira. Elas não se magoam, e voltam tão risonhas quanto antes, para os lugares de onde nunca deveriam ter sido tiradas, só para alegrar o coração de quem já quase não tem mais coração, de tantas surras adultas que levou.

Vem, volta pra casa... e mata com força toda essa saudade!

Diálogo

Os dias são mais do que nomes ou números, para que possam ser contados e lembrados. São mais do que os cadenciados ruídos das engrenagens dos relógios, para que sejam temidos e odiados. E são mais do que simples quadradinhos desenhados nos calendários.

Os dias não podem ser tratados de forma igual, como se passassem pela avenida vestindo uniformes. Não podem ser entendidos apenas como úteis ou inúteis. E nem podem ser desperdiçados, porque em sua viagem trazem passagens apenas de ida, nunca de volta.

Os dias precisam ser mimados, tratados com carinho e respeito, para que não se enraiveçam contra quem os deve aproveitar. Precisam de cuidado, para que não fujam em disparada. E precisam de atenção para que não se demorem mais do que o necessário.

Os dias precisam de tudo, assim como tudo precisa deles.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Mortalidade infantil

Correndo ela vai, olhando pra trás, menina moleca. Sorrindo e gritando, mais baixo, mais longe. Fazendo voar os cabelos no vento, bochechas vermelhas. Vai indo, vai indo. Cai sentada no chão quando olha de volta pra trás, mas levanta e vai sumindo na rua, sumindo na praia, sumindo no mundo das idades adultas. Ela vai, essa danada, pobre coitada, pro fundo de um velho baú. Pra se deitar, linda, mas empoeirada. E com ela vão os cheiros de chuva à tarde, os cheiros de chiclete, bala, primeiro beijo, último amor. Correndo ela vai só pra depois se perder dentro de peitos estranhos, com desejos estranhos, ideais distorcidos. Vai ela correndo morrer em tão tenra idade. Corre, menina, e não olha pra trás, pra não ter saudades de quem já ficou velho demais pra você.

Vai, vai embora... mas promete que um dia você volta pra sempre?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Parece que repete

Pode parecer que tudo se repete, mas a vida nada mais é do que uma constante repetição. Um círculo de mesmas coisas, das quais pouco absorvemos. E pode parecer que tem fim, mas cada fim é nada mais que um muito bem disfarçado recomeço.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fluxo constante

Vai e vem, vem e vai. Diz que chegou, e já se foi. Volta, e torna. E torna a voltar o que já foi. E a coisa vai fluindo, em fluído movimento. Leva anos, leva um segundo, leva o momento na rapidez do rompimento. E flui seus caminhos, indiferente ao que se mente.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Clareza

Ninguém é o que gostaria de ser até que consiga tornar-se o que sonhava ser quando era criança.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Relógio de corda

A idade se deita sobre as costas dos desavisados, espreguiçando-se entre os anos e vidas que envelheceram sem querer, sem amar, sem saber que dentro de si é que residiam as vidas que tentaram viver fora, e jogaram fora.

As barbas se alongam, os cabelos se acinzentam, as rugas já não brincam mais de esconde-esconde. O que se esconde é a certeza disfarçada de que tudo não passa de um passado que ficou no rascunho, rabiscado, amarelado.

Chamas

Ardem os dias e noites em que velamos os mortos que, enquanto vivos, tentaram viver. Como nós, que tentamos escolher, entre tantas escolhas, as que nos permitem volver. Voltar ao começo de tudo, e depois de tudo, ser capaz de vencer.

Ardem nos peitos as ilusões que inventamos, porque a realidade nos é difícil encarar. Mas as invenções que criamos sofrem das falhas que sofremos, e não sobrevivem por muito tempo. Assim como nós, que vivemos tão pouco o nosso pouco tempo.

A guia

Perdi o caminho, o tempo me engoliu. Me enganou, me deixei enganar. Dei ouvidos aos mudos, calei o que podia falar. Perdi o caminho, e o caminho mentiu. Me disse que ia, mas me fez esperar. Me fez de idiota de tanto voltar. Voltou ao começo que eu tanto temia. Fiz de mim mesmo andarilho sem guia.

Caminhadas sem passos

Todos os anos, os mesmos meses, os mesmos dias, as mesmas horas. As mesmas frases, da boca pra fora. Os mesmos gestos, como os de agora. Os mesmos vícios, tudo igual. Todos iguais, cada qual é o tal. Todos os anos, um “olá” e um “tchau”.

Todas as ruas levam ao centro, todo afluente flui ao vento. Todo veneno tem seu antídoto, todo humano mata seu ídolo. Toda paixão se esclarece, todo amor um dia esmorece. Toda flor tem sua cor, todo bem querer carrega sua dor.

Tudo o que temos, pensamos que temos. Mas não temos nada além do que sentimos, ou fazemos. É o preço dos dias que temos aqui: ser o que somos, parar ou seguir. Pra frente ou pra trás entre os meios e fins.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os vãos

Tenta-se forçar as peças para que se encaixem, mas esse é trabalho vão, como é vão querer ir contra o que precisa acontecer.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Velocidade

E os dias vão se amontoando, e nem se importam se seus começos dependem dos fins de outros dias, que passam e se desfazem na memória da história. Só fazem olhar adiante, indiferentes aos anseios que carregamos, indiferentes aos pedidos que fazemos para que durem mais.

É isso o que faz de nós tão pequenos: a falta de controle sobre o que nos controla sem querer, pelo simples fato de existir, pelo simples fato de nos obrigarmos, sem razão, a dar nome ao tempo, e também dar a ele essa absurda velocidade, que  tanto nos apavora.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Fases

Sem mais nem menos, com pouco tato, chega a notícia tão esperada: somos culpados, mais que inocentes. Somos os loucos arrastando as correntes. Fazendo barulho, pra lá e pra cá. Somos adultos, que coisa incoerente. Tentamos de tudo, e quando somos... Não somos.

Não queremos ser. A infância é a melhor fase da vida. Mas que frase “preferida”, tão repetida. Nas festas, reuniões, despedidas. Não, definitivamente não queremos ser. Estamos cheios de si, e isso é muito si para os sacos que temos. Sim, perdemos as paciências.

E o tempo? O tempo galopa, célere, altivo, ciente do trabalho perfeito que conserta os defeitos, e deixa as coisas mais brandas. E ele ensina muitas coisas. Primeiro, que esse é apenas o primeiro momento. Depois as coisas ficam mais brandas, sob seus misteriosos encantos.

Mas a infância ainda é a melhor fase da vida.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Poucos e muitos

Pouco importa se vivemos pouco. Vivemos apenas o tempo que temos que viver. E depois morremos. E sentimos medo, um medo irracional das palavras que inventamos para descrever as mudanças que sofremos. Pouco importa o que dizemos, porque nossas palavras mal traduzem nossa ignorância: dizem apenas o que sabemos. E isso é muito pouco, por mais que pensemos que seja muito. É quase nada. É nada além do que somos por dentro, em forma de palavras.

Muito importa se vivemos muito. Porque então aproveitamos bem o tempo que mal percebemos passar. E passamos a perceber que o futuro é agora, porque sem agora não existe futuro, somente passado. E paramos de morrer de medo de conjugar os verbos nos tempos corretos, com as pessoas certas, no singular ou no plural. Matamos o medo e vivemos o tempo no tempo exato, da forma que ele realmente passa, sem passar mal pelos que ficam ou ficar mal pelos que passam.

Ontem, hoje e sempre

O hoje é mais um caminho de ida nas voltas que damos em volta dos anos que vivemos ou deixamos escapar. O que escolhemos durante o intervalo entre o antes e o depois define o que será da próxima volta: se vai ou se volta, se é papo ou história. No fim, sem fim, tudo depende apenas de nós. Pode ser que isso seja um perigo, mas há perigo em tudo no mundo para os cegos, surdos e mudos que nos tornamos quando viramos adultos.

O hoje é o único caminho que pode nos levar à saída, à escada de incêndio, à porta de emergência. O hoje é o que emerge dos dias que se foram, dos dias em que fomos, de onde relutamos em voltar. Mas é preciso voltar, e ir em frente, e caminhar. Encontrar à nossa frente o que perdemos lá atrás. Viver e reviver, e o cansaço, ignorar. Porque o hoje, de repente, pode não ser mais a véspera do amanhã, como sempre planejamos, mas nunca vivemos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Confio

Confio no tempo, que sabe como ninguém corrigir as imperfeições de todos nós. Confio nos dias, que deixam para trás as noites de insônia e dão alimento aos sonhos que temos de olhos abertos. Confio nas horas, que continuam passando sem se importar se fazemos com elas o que devemos fazer. Confio no Todo, já que nada me resta a não ser confiar. Confio no início, porque todo fim é, na verdade, apenas o reinício.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A brincadeira dos dias

A brincadeira dos dias é colocar a noite para dividir os dramas, porque o tempo se disfarça de noite e então não o vemos trabalhar. Não o percebemos movendo seus ponteiros chatos e precisos, tirando forças sabe-se lá de onde, ou de quando.

A brincadeira dos dias é serem todos tão diferentes a ponto de receberem os mesmos nomes, todas as semanas. A brincadeira dos dias é nos cansar só de passar, porque passam incólumes diante de nossos olhos embotados de horas sem fim.

A brincadeira dos dias é nos fazer voltar ao começo quando chegamos ao final, é ser o dia final quando queremos que algo continue, é continuar igual enquanto lutamos tanto para que sejam diferentes. A brincadeira dos dias é fingir-se de inocente.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dias que quebram a cabeça

Se cada dia é uma peça do Quebra-Cabeça, está difícil conseguir colocar esses dias em seus devidos lugares a tempo, antes que o próximo já esteja na mesa, aguardando sua vez de se encaixar.

sábado, 31 de julho de 2010

Igual, diferente, tanto faz...

Está tudo igual. As cortinas, os tapetes, o sol na sua posição habitual para essa época do ano. A quietude, com seus cantos de pássaros, o ponteiro do relógio, as revistas, os livros, os quadros. Está tudo igual. Simplesmente como antes. Da mesma forma em que tudo foi deixado, de um jeito cuidadosamente descuidado. Os móveis que não combinam, as paredes levemente manchadas. As lembranças de outros dias ecoando pelos cantos quase sem poeira, quase limpos, quase tudo... do mesmo jeito.

Está tudo diferente. Todas as cores mudaram suas nuances e seus brilhos, suas aparências enganosas e tão frágeis. Está tudo tão diferente desde então, quando todos os sonhos eram claros, cristalinos, bem diferentes dos borrões disformes de hoje. O hoje... com suas sombrias verdades escondidas sob escombros que mais parecem louça suja na pia, porém cuidadosamente organizada, só para não dar a impressão de uma grande confusão. A confusão, com tanto ruído e pouca demonstração de compaixão ou cumplicidade, tanto conteúdo agressivo e tanto... Vazio.