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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Econtros e despedidas

Mais próximos das distâncias, do que distantes da proximidade. É o efeito do contrário, que distrai o bom senso da similaridade, disfarçando a simplicidade com estranhos figurinos.

Mais distantes entre si por dentro do que próximos na física da presença: separados por muros e grades construídos com matérias abstratas, como julgamentos, ou temores.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Matéria sutil

A imensidão é muito grande para as partículas que somos, para o suor que suamos, os esforços que sangramos. A imensidão é muito espaço para o pouco som de nossas vozes, o curto alcance de nossas preces, os segredos que guardamos.

Os espaços do espaço estão repletos de distância, assim como o ar que nos sustenta. Estamos quase fora de alcance dentro das bolhas que sopramos. Os passos que nos aproximam são os mesmos que nos levam pra longe. Os abraços que trocamos são iguais aos que evitamos.

Mas o vazio que nos separa não pode ser mero desperdício. Não faz sentido que seja isso, seria apenas dor. É inevitável que exista algo que nos ligue, mesmo no meio de tanta vastidão. Isso quem diz é o coração: o que nos liga deve ser, tão somente, o amor.

Eu, tu, todos

Queremos companhia, queremos compartilhar. Queremos dividir o indivisível, queremos fazer com que tudo seja possível. Queremos, simplesmente, aprender a amar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Abstrato insensato

Nos ângulos retos, do chão ao teto, a poeira voa o voo do silêncio. Voa e acha refúgio no pouso seguro, deixando opaco o móvel que não se move há anos. Não se move, imutável dentre todas as mudanças que movem esse mundo tão jovem, tão cheio de coisas que nos enchem, preenchendo os vazios que colecionamos durante vidas tão curtas, diante de palavras absurdas que criamos para todos, para tudo: para o cego, para o surdo.

Nas curvas dos corpos que tanto admiramos, estejam eles suspensos no vácuo ou andando nas ruas, perdemos os rumos que pensamos dar ao que achamos puro. Na pureza da inocência que afogamos em nossos sussurros, na essência do medo que guardamos do escuro, repousa a matéria que nos mantém tão seguros, tão humanos, tão sozinhos. A matéria que usamos para construir nossas paredes e muros, que nos isolam em nossos próprios mundos.

Nas retas e curvas, ângulos e parábolas, apogeus e perigeus, nos pontos que não se ligam, ou que ligam o nada ao lugar algum. Em algum lugar que já não conseguimos mais lembrar, em algum canto dos lugares que tanto fazem falta, se esconde o que há muito só assusta: a resposta da pergunta, a solução do problema, a teoria que conspira contra o senso do que é bom, a verdadeira arquitetura do sistema. O sistema que criamos, e que precisamos destruir.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Deslumbre

Nos deslumbramos com nossos feitos, nossas viagens e invenções. Descobrimos coisas incríveis, mudamos tudo em que colocamos as mãos. Mudamos o mundo, para que se pareça conosco. Bancamos os gênios, mas na vergonha, escondemos o rosto. Dizemos que tudo sabemos, mas tudo o que sabemos, ainda é muito pouco.

Inventamos mentiras, guerras, preconceitos. Separamos o que estava junto, e quando nos cansamos, juntamos tudo de novo. Levantamos muros, cavamos trincheiras, sepultamos os vivos anônimos, cultuamos os que matamos à toa. A distância que nos separa de tudo está repleta de tudo o que pensamos que somos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Falta

Falta é ausência, vazio. É a abstinência, que leva a razão à falência. É o nada que vira algo, que vira tudo, por qualquer motivo. A falta é o meio para os fins, é o resultado do fim. É o medo que temos por você, ou por mim.

A falta é o intervalo silencioso entre o que tínhamos e o que não temos mais. Entre o fazer muito pouco e o fazer um pouco demais. A falta é apenas a transfiguração da presença que sentíamos tempos atrás.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Sistemas planetários

Vivemos em mundos de órbitas estranhas, aquecidos por estrelas idealizadas, assolados por cometas frustrantes, num ambiente de frágil equilíbrio que, ao mesmo tempo em que nos sustenta, nos destrói.

Vivemos em mundos separados, unidos por atrações inexplicáveis, sob leis abstratas que criamos para preencher as lacunas que nos desesperam, e nos separam, enquanto lutamos para estarmos juntos.

Vivemos em mundos diferentes, iguais em massas e composições, cataclismos e indecisões. Vivemos em mundos diferentes e tentamos ser iguais, vivemos distantes, lutando pela proximidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Saudade I

Saudade é uma coisa maravilhosa. Te remete de volta às coisas mais doces, às pessoas mais doces. Te leva de volta no tempo, que anda em círculos e sempre nos surpreende com suas mágicas repetições, trazendo de volta situações e pessoas que nos fazem lembrar e sentir segurança para os próximos passos. Conforto, como colo de mãe, como cama quentinha e travesseiro com o perfume do nosso cheiro. Então os próximos lugares, as próximas festas, as próximas pessoas não nos amedrontam tanto.

Certo?

Saudade II

Saudade é uma merda. É a sensação que traduz algo que, de qualquer forma, você perdeu. Pode ter sido alguém, alguma coisa, algum tempo. Ficou, lá atrás, na linha de um tempo que anda em círculos que vão se fechando. E sempre aparece alguma coisa pra te lembrar que aquilo, aquele, aquela, ficou lá atrás. E é sempre algo, alguém, algum lugar parecido, quase igual. E isso te faz lembrar, te faz desejar que não passe mais, que não fique para trás com o restante de todas as outras coisas que já ficaram.

Isso dá uma raiva antecipada, fecha uma corda ao redor do pescoço. Parece que sabemos que vamos errar, que alguma coisa vai acontecer, vai dar merda em algum ponto. Ficamos com medo do medo que temos de largar mais bagagem no passado. Um passado que não queríamos que passasse, mas que fosse presente sempre e futuro, no futuro. Mas o medo está lá, sorrateiro, escondido, agachado no escuro só esperando a chance de pular rindo da sua cara. Se ferrou! Não falei? E pronto, mais motivo para saudade...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ordem

Ouvi alguém chamar o meu nome, no meio da noite, no meio do sono, entre o que existe e o que é sonho. Senti um abraço tão morno em meio ao frio que eu sentia, que a meia noite quase virou meio dia. E toquei uma pele suave como a neve dos prados que ao sol derretia. Despertei fechando os olhos, vivendo o tempo ao contrário, desejando de volta a nudez que minha saudade vestia. E percebi que a distância, por tão grande que fosse, jamais me perturbaria.


Respirei o perfume do vento que levou embora o fogo da vela, e deixou entrar no aposento a desordem da luz cinza do inverno, pálida e bela, em sua quase não existência, como algo que existe em dois mundos ao mesmo tempo. Como a minha lembrança, que resiste aos encantos do esquecimento, me levando sempre de volta, vivendo o tempo ao contrário, devorando toda a distância que se coloca entre os momentos que tivemos antes do arrependimento.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A espera

A espera é mais do que os minutos que gotejam, mais do que as horas que anseiam, mais do que os dias que vagueiam. A espera é mais do que o tempo que se arrasta, é mais do que a chuva que nunca passa. A espera é mais do que podemos ver, é tudo o que podemos sentir entre um intervalo e outro de um tempo vazio e silencioso.

A espera é mais do que podemos explicar, ver, tocar. A espera é tudo e nada ao mesmo tempo, corpos dançando no não-tempo e no não-espaço. É estar nu no centro de tudo, sob o olhar de todos, mas sem poder ver com os olhos, falar com a boca ou ouvir com sabedoria. A espera é o intervalo entre o falar e o calar, entre o pensar e o sentir. Entre eu e você.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quero que morram

Que morram as mágoas, os rancores, as dores. Que morram as maldições, as maldades, as falsidades. Que morram os atores dessas peças insensatas, os peões das ações impensadas. Que morram as palavras que machucam, que se calem, sumam. Que morram os dias que mais nos esforçamos para esquecer.

Que morram as perdas, as incertezas. Que as desgraças que nos deprimem cessem, que as consciências pesem. Que morram os momentos deliciosos que passamos com quem agora nos odeia, que morram os ódios que nos rodeiam. Que morram as confidências e os passados, as sinceras e os errados.

Que morram os distúrbios, as pobrezas e infortúnios. Que morram as cidades que devoram as liberdades e as individualidades. Que morram as necessidades, as doenças, as diferenças. Que morram as mortes desnecessárias, as perdas, as ganâncias. Que morram todas as distâncias. Principalmente as que existem entre nós.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O que eu quero é o que eu não tenho

Entre o que desejamos e o que temos há uma distância enorme. Pode ser a distância da falta de diálogo, ou os quilômetros de uma longa estrada. A falta de coragem, ou o excesso de confiança. Pode ser uma enorme timidez ou auto-proteção. Um olhar de desejo ou lágrimas magoadas.

As distâncias se apresentam de formas variadas, criando abismos entre nós mesmos. Entre os que se amam e os que se odeiam. Entre os que se desejam e os que se despedem. Pequenos abismos difíceis de transpor, mas tão fáceis de conceber. Um passo em falso, e a distância se faz verdadeira.

Mas vale muito a pena eliminar coisas tão dolorosas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um dia isso vai mudar (?)

Existe um abismo que nos separa daquilo que mais queremos. E este abismo se abre dentro de nós mesmos, alimentando-se de nossos temores.

Os mundos em que vivemos geralmente orbitam distantes dos mundos que mais desejamos conhecer, pois nossa natureza ainda é dominar e destruir.

As palavras que dizemos soam como aveludadas notas musicais ou sibilam como pequenas adagas dependendo do quanto nos sentimos adulados.

Nossa capacidade de ajudar está condicionada àquilo que pensamos ser possível obter de volta, já que o desinteresse é por enquanto apenas um exercício.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Escolhas

As escolhas que fazemos erguem-se como muros ao nosso redor. Alguns baixos, outros altos a ponto de nos jogar de volta ao chão. Alguns protegem, outros seguem na contramão: expõem. Alguns cedem sob o peso de nossos desvios de caráter e falta de bom senso, outros tombam diante dos golpes desferidos pelos inimigos. As escolhas que fazemos nos trazem aqueles que queremos ao mesmo tempo em que nos afastam de nós mesmos.

As escolhas que fazemos influenciam tudo o que nos cerca. Acontecimentos e pessoas tornam-se meras reações, resultados. Uma escolha demanda cuidado e reflexão. Muitas variáveis podem advir de qualquer pequena mudança de pensamento. E essas variáveis podem nos surpreender e nos desarmar. E então nos sentimos nus e desprotegidos, pois somos colocados do outro lado de nossos muros, como se diante do pelotão de fuzilamento.

Mas o ato de escolher não pode ser tolhido, é uma força que deve nascer de alguma Lei Natural que simplesmente não pode ser refreada por nosso insignificante desejo. Nossa única opção é obedecer a este comando invisível e tentar fazer o melhor que podemos. É inevitável que em algum ponto do tempo surjam frustrações, arrependimentos, angústias e apenas algumas poucas alegrias. É como estar numa sala de aula aprendendo uma lição incessante.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O ouro do tolo

Muitos se escondem da felicidade, escolhendo cuidadosamente suas desculpas. Pode ser a falta de tempo, a dedicação ao lado profissional, um trauma, a vida maluca de uma cidade que não fecha os olhos.

Muitos fogem das alegrias e das boas gargalhadas, seguindo sozinhos para casa a fim de contar quantos estalos vão dar os móveis depois da mudança de temperatura. Muitos perdem as oportunidades, por simplesmente terem muita coisa na cabeça.

Mais e mais pessoas soam como robôs programados com gírias e penteados, sapatos e atitudes. Poucos se destacam na multidão que toma as ruas diariamente, no vai e vem sem fim. Mas ao invés de atrair, estes que se destacam acabam sendo isolados.

Mais e mais tempo se perde na busca por uma perfeição que neste mundo não vai existir. As coisas simples tornaram-se entediantes e os grandes feitos é que interessam. Grandes para a maioria, já que a minoria interessante só vê falta de bom senso.

O amor necessita esforço em grandes doses de pequenos gestos, pequenas coisas tão simples, que acabam parecendo complicadas e trabalhosas. Mas o amor dá trabalho mesmo, pois os grandes feitos, os verdadeiros, exigem grande dedicação.

O amor pode causar dor em seu percurso, despertando outros sentimentos que preferimos não encarar. Mas, como toda grande obra, traz ao final redenção e paz de espírito inigualáveis. Mas parece muito mais fácil viver as pobres paixões...