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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Doze

O primeiro dia é um dia lindo, um dia santo. Um dia de início, um início franco. Aberto, definitivo. Um dia e tanto.

O primeiro dia é o dia um, o dia que traz consigo todos os outros, mesmo que pareça apenas um dia comum. Pois é no comum que sobrevivem as farturas verdadeiras, os cansaços e descansos, os trancos e barrancos de uma vida inteira.

O primeiro dia, nesse dia a dia que vivemos, é dia de pensar. E acertar o que está errado nesses mundos tão extremos.

O primeiro dia é o último dia do passado. Que descanse em paz, mantendo-se lembrança. Mantendo-se parâmetro, referência, conhecimento. Que seja essa sua herança, e não os velhos sofrimentos. Que o primeiro dia dure uma vida inteira.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Jantar

Todas as luzes acesas, lembrando a ceia, a sobremesa. O copo cheio, a garrafa vazia, o aperto no peito, a louça na pia. O talher e o guardanapo, indiferentes à correria do dia. O dia que não vinha, mas veio. E se foi, como se estivesse a passeio. Como se viajasse no álcool, ou nos orifícios dos seios. Não importa como, simplesmente veio e se foi. 

E deixou seus aromas no rastro, como se a vida fosse apenas isso de fato: chegada aguardada, despedida sentida. Proximidade esperada, distância aborrecida. A ida e a volta do cotidiano. Entra ano, sai ano. Tudo igual num ano diferente, e o vice-versa do ano igual. Tudo que começa bem parece que acaba mal. Mas isso é apenas o normal.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O único perigo é o primeiro passo

Parece pouco o que há na mente, no coração, no bolso. Parece pouco, comparado a tanto de tudo que há por aí. Pode até ser que a certeza seja menor que a dúvida, porque quase sempre é, e quase sempre assim permanece. Mudar isso é um trabalho imenso, que exige força além da humana, já que a humanidade não está mesmo nem aí para isso. É caso isolado, não está na massa. Está por fora de tudo.

Deve ser mesmo muito pouco, de tão pouco que se mostra. E, quando se mostra, assusta muito. Causa pânico. Causa um monte de coisas, com um monte de nomes. Causa dor física e um vazio impalpável. Indigerível. Revela-se fraqueza diante da força de tantas coisas aos avessos que andam soltas por aí. Quase causa pena. Quase causa porque a piedade está em falta, jazendo vencida nos estoques.

Até onde isso vai, é impossível dizer. Assim como é impossível dizer um monte de coisas que ficam engasgadas, desgastando a garganta, por onde só desce veneno. O veneno dos dias e noites que passam em branco, um branco sujo e avesso ao branco da paz. O suave veneno vertido contido nas diversões invertidas que inventaram um dia, para que os dias passassem em passo veloz.

Até quando isso vai, nem o relógio responde. Envergonhado, ele se esconde atrás de seus ponteiros espasmódicos, que pulam os números em compasso metódico, enganando as engrenagens que já nem sabem o motivo que as fez tão velozes. Até quando isso vai já nem interessa, porque a dona do mundo agora é a pressa, que passa depressa e deprime àqueles que dela dependem, de forma perversa.

Mas tudo para algum dia, porque tudo morre, se inverte e se transforma em algo novo. Vira pó, vira cinza, carbono, estrela. Partícula atômica, isótopo sem tempo. Voa no vento, cai ao relento. Aquece, queima, reage. Muda de cor, floresce, revive. Tudo morre, muda e nem se incomoda se existe essa pressa, se o vestido é da moda, se tudo é dinheiro. Isso tudo, quando tudo morre, é apenas conversa.

Um monólogo. Monumental.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sem eira, nem beira

A falta de luz deixa nu o escuro, que brinca de rei, construindo desmandos que bagunçam os cômodos que foram deixados vazios por aqueles que foram, e que nunca voltaram. Foram de vez, vezes sem conta, sem dar a mínima importância para quanto vazio deixaram pra trás.

Foram todos embora, vestidos de santos, fingindo inocência diante de tudo o que esse nada agora traduz. Não deixaram endereço, palavra ou conforto: somente o silêncio, que empoeira todos os cantos dos lugares vazios, onde nascem os medos pelos dias que fogem.

Não sentem remorso, mas mesmo se sentissem, isso pouca diferença faria. Porque o que fica, só fica pra um, não tem a menor importância para outros, mesmo porque dos outros, não resta nenhum. E mesmo se restasse, seria resto, e isso é pouco diante de tudo.

Reticências

Sentado no escuro, ele pensa no mundo, pensa em tudo que vê à sua volta. E volta a tempos cada vez mais remotos, tentando encontrar as almas que já abandonaram seus corpos. Mas, pobre rapaz, não chega onde quer, onde quer que isso seja: fica preso num tempo em que só se enxerga tristeza, com se fosse um abismo de imenso vazio. De lá não consegue sair, preso que fica por mãos que o puxam de volta, para viver de novo essas coisas estranhas das quais sempre tenta fugir. Pobre coitado, não sabe que a fuga nada mais é que atalho, percorrido apenas para dar de frente com o medo que mantinha guardado...

Sentado no escuro, ele se sente sozinho, como se não existisse ninguém capaz de estender-lhe a mão, para puxá-lo de volta, para longe desse sonho daninho do qual é difícil acordar. Dentro do peito ele sabe que só precisa de amor. Mas que amor existe nesses dias estranhos, em que as pessoas reparam mais no que temos, do que no que somos? Pobre menino, que pensa na vida como se essa fosse ainda da maneira como ele a percebia, antes desses dias, antes de tudo. Antes que tudo se tornasse esse nada no qual ele nada sem sequer avistar uma margem. Pobre diabo: sabe que pode, mas não consegue desistir...

Barro soprado

O que faz do humano um ser humano é sua tendência em desejar o que lhe é improvável conseguir. E, quando consegue o que deseja, pouco se importa com as dúvidas que suscitou, com as mágoas que gerou, nem com os rompimentos que forçou. Não pensa em nada, a não ser em si mesmo e nos fins que justificaram os meios sujos que utilizou.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Canção do concreto

Dispensei o passeio pra ver a verdade, pra saber se a verdade é mesmo o que dizem, ou o que escondem, atrás dos lábios pintados, dos dentes cerrados, dos olhares vidrados. Eu vim pra ver e  ouvir, com a miopia herdada e a surdez bem disfarçada, e saber se é mesmo real o chão que se pisa.

Mas o chão que se pisa, eu vi que é de mentira, é ilusão partilhada entre os que vivem nas nuvens. As nuvens dos valores torcidos pelas histórias amargas que os fracos não conseguem engolir. As histórias de muitos que ignoram o pouco que é necessário para pisar com segurança na certeza da terra firme.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Açougue

A carne é daninha, e nem é erva, pra se fazer um chá, um banho, um tempero, um cigarro. A carne é cegueira, intolerância, veneno, violência. É segredo escondido, é grosseria, solidez pra restrição. A carne é só o começo de um longo caminho. Depois melhora.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Metrópole

A cidade dos sonhos tem caminhos largos e pavimentados, não apertadas ruas de asfalto remendado. Tem árvores, jardins e nenhum carro. Casas simples, mas espaçosas. No ar, aroma de café e pão de manhã, e café e bolo no meio da tarde. Perfume de refeição no almoço e no jantar. Cheiro de mato e barulho de grilo para desfazer o cansaço. Criançada brincando do lado de fora das paredes. Poucas luzes, para fazer valer a luz do luar. Menos gente, e mais pessoas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Desejos

Desejamos novas flores, novos verdes, novas cores. Novas chuvas, novos ventos, boas lavouras. Desejamos novos amores e a renovação dos que já existem. Desejamos um longo intervalo para as dores. Desejamos novos sóis, novos calores. Novas ideias, novas vidas. Novos sentidos, palavras nunca lidas.

Desejamos tudo de bom para que haja reconstrução. Desejamos um sorriso, um abraço. Um momento de carícia, um amasso. Desejamos viver o que as outras estações nos roubaram: o calor do corpo, os voos zunidos, os corpos unidos, as cores quentes, listradas. As forças refeitas, o pólen nos ares, o fim das guerras.

Desejamos essa nova primavera.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Coração e alma

O espírito liberto conduz a mente aberta para longe da confusão, para longe dos vazios da solidão. Por caminhos de curvas suaves, sem destino. Sem parada por cansaço, sem disfarce ou distração.

A liberdade do espírito está além de barras ou amarras, está além do que se entende. Está nas palavras verdadeiras, nas verdades do silêncio. Quietude sem temor, solidez que não se abala.

Uma pela outra

A vida espera a morte enquanto a morte espera a vida. Uma vive pela outra, sem mentira ou fantasia. Sem crenças infundadas, ou brincadeiras infantis. A fé e a falta de fé são caminhos parecidos, como o ódio é o amor fazendo-se invertido.

Mas o disfarce dura pouco: muito menos do que se imagina.

As pontas

De um extremo ao outro, da corda bamba ao conforto, do amor à promiscuidade, da presença à saudade. A humanidade se desfaz na falta do espírito, na fartura do vazio. Vai enterrando seus tesouros na areia que se move, escorrendo pelo tempo. Vai descendo as escadas de volta à escuros aposentos. Como numa nova Idade Média.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Rotos

Talvez o que mais perturbe não é o pobre, mas a pobreza. Porque o pobre faz proeza, faz de tudo quase sem cobre. Faz o que dá, e o que não dá faz outra parte depois, quando der, se der, sabe-se lá. O pobre não perturba por educação, pensa no outro, no agora. Vive o agora, como se fosse a última hora. Vive fazendo, tudo tentando. E depois de tentar de tudo, tenta de novo.

Mas o que estraga o pobre é a pobreza. O pobre estado de pobreza em que se encontra a humanidade. É muita pobreza: pobreza espiritual, mental, natural. Material. Muitos tipos, muito peso. Muita falta de caráter, muita falta de vergonha. Muita falta de fortuna na alma. Muito pouca alma com que contar. Mas os dias desses contos estão contados, ouviu-se contar.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ácido presente

A humanidade está em coma auto induzido, está repleta de verbos desnecessários. Está cheia de crimes e violências, perdendo os poucos restos de noção e decência. A humanidade está deixando escapar seu único tesouro. Está deixando de ser inteligente, matando pessoas. Criando só gente.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ponta de estoque

O preço das coisas que queremos vai além das aparências que mantemos, em nossos jogos desatentos, em nossa inveja pelo alheio. A vida passa na incansável perseguição que alimenta os anseios por mais coisas, coisas maiores, degraus mais altos, atalhos e saltos. E, enquanto isso, a simplicidade cai no esquecimento, no buraco negro que engole tudo, de dentro para fora.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Simiumanos

O que nos difere dos símios é nossa incrível capacidade de ter fé e fazer boas coisas, assim como nossa incomparável capacidade de destruir o ambiente de nossas próprias vidas.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Rebanho

Esse comportamento de rebanho, que nos arrebanha, nos transforma em massa deformada, conformada e sem pudores, nos limitando às linhas pontilhadas dos mapas da ignorância, um dia precisa acabar.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vidas

Todos levamos vidas diferentes, depende das ocasiões. Podemos parecer felizes, contentes, centrados, perfeitos. Mas quando acabam as ocasiões, tiramos os saltos, as gravatas, colocamos os pés de volta ao chão e voltamos à origem da qual o tempo todo tentamos fugir: simplesmente humanos.

Podemos falar, escrever, fazer, acontecer. Podemos brilhar sob luzes ilusórias, podemos ser anônimos ou conhecidos. Mas quando as luzes se apagam, quando descem as cortinas, tudo o que nos sobra é aquilo de que tanto tentamos fugir em nossas distrações bem arquitetadas: nós mesmos.

E é no silêncio de nós mesmos que nos lembramos de quão insignificantes fomos em nossas rápidas fugas, quando nos esquecemos do que temos que fazer e de quem nos espera em casa. É na sala fechada da quietude que todas as sombras saem para brincar, criando os jogos incertos que, um dia, temos que jogar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Curtas

Quanto mais descobrimos, menos sabemos. Quanto mais profundos os mistérios, mais superficiais os desejos. Quanto mais demorado o ensaio, mais rápido o erro. Quanto mais complexo o problema, mais simples a solução. Quanto maior o cansaço, menor o descanso. Quanto mais, quanto menos. A certeza é o de menos.