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sábado, 5 de dezembro de 2020

Das idas

Todo mundo se vai, eu me fui, muitos se foram. Muitos voltam, outros não.

Mesmo assim muito fica, mesmo muito depois. Ficam coisas que ninguém sabe se eram reais, ou se eram normais, seja lá o que fossem. No final, cada um vê de um jeito. Cada um entende de um jeito. Cada um dá seu jeito, e vai se virando.

Não sei se já são anos demais, não sei se foram dias de menos, só sei que agora parece que nunca foi o suficiente. Parece saudade mas é outro vazio, um que é mais fundo, sei lá, diferente. É foda explicar tão de longe, tão fora de hora.

Mas é assim que é, é assim que foi. Todo mundo se vai, eu me fui, todos se vão.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A ampulheta e o cavalo

Se está tudo errado, então é hora de fazer o certo. Mas não é confortável fazer o mais difícil, quando o mais fácil é tão fácil. Ainda mais nas grandes cidades, cheias de atalhos para qualquer hora do dia, ou da noite. Está tudo nas avenidas, nas ruas, nos becos. Os labirintos das favelas, os jardins dos condomínios. Tudo o que existe aqui, existe de ambos os lados das grades. Como nós, a nossa obra, o nosso orgulho. Nosso egoísmo.

Mesmo com tudo estando tão errado, quase não se vê quem está fazendo o certo. Porque o certo, certamente, não aparece tanto, já que é feito nos silêncios individuais. Os silêncios dos poucos que se calam diante das calamidades que deformam o bom caráter. Os poucos que olham para dentro, ao invés de olhar para fora, cheios de coragem considerada covarde pela imensa maioria. Uma maioria que treme de medo dos espelhos.

Há monstros nos espelhos, há conteúdos nos vazios, mesmo nos que parecem mais vazios. E são esses os que mais assustam, pois isolam-se em sono insone. Amontoados, amedrontados pela quietude abrasadora das Verdades que tanto tentam mascarar atrás das máscaras de si mesmos. E, como todos, eu também tenho uma máscara de mim mesmo. E também há monstros nos meus espelhos. E eu também prefiro os atalhos.

Mas mesmo que continue tudo errado, decidi que vou fazer o certo. Não sei quem vai ajudar, se é que alguém vai se dar a este trabalho. Não sei o que farei, nem sei por onde começar. Mas já não quero mais fazer parte do erro, eu quero ir para o lado do acerto, mesmo que apareçam muitas contas a acertar. Pois se eu não acertar agora, então é melhor me retirar. Porém não é isso o que eu quero, porque sinto que não é isso que vim fazer.

E, já que está tudo errado, tentar fazer o certo pode ser que dê certo. Porque, às vezes, é no retorno que está o caminho certo. Mas parece ser hora de se apressar, porque é visível que muito tempo já foi perdido. Muito, muito tempo, muita vida, muita gente. Muito vai e vem. O tempo, agora, pressiona em urgência. Não tem mais paciência, pois suas areias vão escorrendo. E o cavalo quer correr, mas só poderá quando puder.

E, até lá, só nos resta tentar fazer o certo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Juros

Juro que queria ter algo bom pra dizer, boa notícia pra dar. Mas esses dias escuros, com seus ventos cruzados, só me fazem pensar. E quando penso, dou de cara com o peso de tudo. A fraqueza, e seus muros. Suas bocas dentadas cravadas nas pernas que tremem, nos pés que descascam, cheios de furos. Pensar olhando no espelho é difícil pra burro.

Juro que tenho algo bom pra contar, tenho certeza, é só procurar. Mas aqui dentro é escuro, difícil de ver, cheio de lodo e limbo e tudo que faz o estômago rodar. Tinha aquele negócio, que aconteceu outro dia. Acho que lembro, foi ontem. Anteontem, não sei. A lembrança me trai de propósito, ri de rolar. Ri da minha cara de otário quando tento lembrar.

Juro que havia algo bonito, guardado aqui dentro. Eu vi de manhã, só não sei se foi hoje. Ou se foi ontem, ou no ano passado. Importa isso agora? De tanto pensar no tempo, no quando, o lance fugiu e não tenho nada a dizer. Só fico calado assistindo a parede tombar. Você crescendo tão rápido, todo mundo indo tão rápido. E eu tão quieto, do lado de cá.

Juro que nunca mais vou jurar, seja por qual santo for, porque minha cabeça já está até a tampa. Lotada de vazios e lacunas que o tempo desenha, sem graça, fazendo graça da desgraça que é remar o barco na lama, escutando tudo sem ouvir, vendo tudo sem enxergar. Esperando que a esperança funcione sem coração, ou que a fé me mova de lugar.

Juro que não juro mais nada, porque promessa não sei cumprir. Não sei não voltar a errar. Não sei direito fazer o certo e acabo errando o dobro, só de tentar. Às vezes acho isso injusto, mas se justo não sou, também não me cabe julgar. Portanto, não vou jurar nem que calo minha boca. Porque uma hora ou outra, vou precisar te chamar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Minuto

Um minuto, por favor, sem poesia. Sem rima, sem parada, sem bobagem. Tira, tira a maquiagem. Mostre-se como é, para que todos vejam se é isso mesmo, não se importe se não é. Vai seguindo, vai andando. Mas, faz silêncio. Porque senão ninguém escuta. Ninguém percebe, só faz de conta. Um minuto, por favor, sem essa pompa. Porque sempre cansa. Sempre, sempre. Fica sempre na lembrança. E não se engane: ninguém mais escreve como antes. O tempo passou, o mundo mudou, mudaram o mundo e você nem se ligou. Não. Um minuto, por favor. Só um mísero minuto. Você vai ver que tudo muda. Tudo sobe, tudo afunda. Uma hora a gente cai de cara, outra de bunda. Mas não importa, não encana com isso. Um minuto, por favor, e você vai fazer diferente. Vai ser tudo diferente. Só um minutinho.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Silêncio só

O silêncio ainda espreita, com suas sombras sorrateiras, cheias de malícia. Ele ainda usa seus disfarces, como se fosse fácil manter-se no topo de tudo, durante todo o tempo. Insolente, petulante.

Mas sem o medo, o silêncio nada mais é do que ele mesmo: a ausência do som, ou o som bem baixinho, ruído de fundo, canto de pássaro. O silêncio não é ninguém sem sua turma. Inocente, repousante.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pânico

A importância que damos ao que temos, ou proporcionamos, diminui nos tombos que vamos levando, nos dias que vão se encurtando, nas palavras que seguimos desacreditando.

A importância que achamos que temos não é a mesma que realmente temos para os outros, não importa o que seja dito, ou mostrado. O que importa, no final, é que nada disso importa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Forçado

A falta que faz a ausência de espírito é do tamanho das incertezas que se encontram à frente. A coragem que jaz no peito apertado pelos dias ingratos é o que separa o sorriso da lágrima: a coragem que falta, a falha que revolta, as voltas que faltam para dar as costas ao que tanto incomoda.

domingo, 23 de outubro de 2011

Superação

Depois do tombo doído chega o antídoto para o desânimo: a reflexão. O momento de fechar os olhos para enxergar, de calar a boca para dizer à si que não, isso não pode acontecer de novo.

De reflexão em reflexão o coração viaja de uma lembrança para outra, na árdua tarefa de encontrar o elo, o defeito, o alheio. Mas o coração, que jamais mentiria, não mostra o alheio.

Mostra a verdade: a origem do erro, a fonte do problema, o reflexo no espelho. Não é possível culpar segundos ou terceiros. Porque isso só é justo aos olhos vendados da justiça humana.

Entender o próprio pensamento, e perdoar o próprio erro, são os remédios que não ardem nos arranhões dos tombos. Pedir perdão é o que cicatriza: a marca fica, mas não dói mais para levantar.

domingo, 16 de outubro de 2011

Cada um, cada um

Cada um sabe o valor de uma lágrima, de um sorriso, de um abraço, de uma saudade. Cada um tem um valor, cada um tem uma medida. Cada um tem seu peso, cada um tem seu alívio. Cada um tem seu momento. Pode ser um, pode ser um monte. O importante é que cada momento é de cada um, e de ninguém mais.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Estranheza

O vento não soprou, a chuva não caiu. Nenhum som foi ouvido, a luz não se acendeu. O dia foi rápido, a noite nem veio. O sono perdeu o perfume, a cor sumiu da parede. O muro separou dois dos lados, o pó da construção invadiu os cômodos vazios. O conforto fez doer pela mesmice de si mesmo.

A paciência desapareceu, a esperança já se despediu. O vazio chegou com sua mobília invisível, fez dos restos sua nova morada. A razão expirou nos caminhos estranhos dos sentimentos. As nuvens se foram, as sombras são outras. O elo se partiu, a balança pendeu, o peso exagerou e tudo ficou diferente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O que não é

Parece que a fonte seca, e parece que as folhas secam. Parece o inverno, mas então este já se foi. Parece cinza, mas é outra cor. Parece coração, mas é só razão. A razão do concreto, das formas retas, do serrilhado do horizonte. Parece hoje, mas foi ontem. Parece isso, mas é outra coisa.

Parece um vazio, mas se estivesse mesmo vazio, não haveria dentro o que há. Parece mais do que se consegue explicar. Complicado, mas não é. É o chão, é o céu. É como ser absolvido e continuar sendo réu. Parece o que não é, mas o que não é, é bem diferente do que parece.

Parece que não tem forma, feito nuvem em cima de nuvem. Parece que não para, feito vento súbito. Parece certeza, mas é dúvida. Parece liberdade, mas é dívida. Difícil de saldar, fácil de acumular. Como cúmulos acumulados que anunciam chuva forte. Parece que é chuva, mas é só garoa.

As cordas

As cordas tocam, e prendem. Sustentam, e se arrebentam. Amarram, e mantém. Vibram, e bambeiam. Esticam, e penduram. Dão voltas, machucam. Enforcam, e afrouxam. E, quando caem, libertam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Voltas

De volta em volta, de rodeio em rodeio, rodeiam as palavras que não querem calar. Rodam, rodam, mas não pousam, não se fazem ouvir. Só ficam girando pelo ar preso na garganta, um espaço muito restrito, mas onde cabem muitas coisas. Tantas coisas que é melhor nem falar.

Diário

Querido diário, não sei onde foi parar a lembrança que eu tinha pra hoje, porque hoje eu resolvi não me lembrar de nada. Porque toda vez em que eu tentava me lembrar de algo, lembrava de algo que não queria lembrar.

Querido diário, talvez seja melhor não falar mais com você. Porque você sabe demais a respeito de quem não lhe diz tanto respeito, porque você não respeita muito os medos e incertezas que preenchem suas linhas tão retas.

Querido diário, acho que vou lhe matar. Porque você, no final das contas, guarda todas as contas que eu não queria contar. Vou rasgar suas folhas silenciosas, cheias de segredos que se mantém perversamente secretos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ânsia

Falta de concentração, imagem desfocada. Falta de noção, insatisfação disfarçada. Disfarces disponíveis para o tudo ou nada. E quase nada atinge grande profundidade. Problemas com o espelho, problemas com a idade. Há muita coisa que é pouca pra saciar nossa grande ansiedade.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Senhas

É uma pra cada cartão, é uma pra todos, e outra pra um. É um minúsculo resumo do que é sempre muito importante. É a resposta de várias perguntas importantes. É o segredo não muito secreto que vez ou outra escapa. É a proteção, é o ponto fraco. É o que dá livre acesso a tudo que nos pertence. Inclusive o coração.

Infinitivos

Receber, entregar. Dosar, saber. Sentir, deixar. Pensar, pedir. Sair, viajar, voltar... chegar, ver, sorrir. Corrigir, crescer, engatinhar. Andar, correr, abraçar. Ficar, morar. Saber, amar. Dizer, calar. Cantar, subir. Voar, respirar. Transpirar, deduzir. Expor, impor, dispor... sentar, relaxar, ouvir.

sábado, 6 de agosto de 2011

Uma conjunção essencial

Se o nosso amor não fosse pouco, teria durado para sempre, e não teria sempre soado como promessa soprada, nem seria soprado pela brisa de qualquer promessa. Se o nosso medo não fosse muito, teria acontecido muito do que sonhamos, e os sonhos continuariam sendo o alimento que mais gostamos.

Se a nossa vontade não fraquejasse, fortes seriam as chances de sabermos o que fazer quando fosse necessário fazer algo, ou apenas ficar quieto. Se nossa necessidade de criar opostos que se atraiam não fosse tão necessária, menos iguais viveriam sem saber o que é ser necessário.

Se a nossa verdade fosse mesmo inflexível, não haveriam as meias verdades que contamos a nós mesmos. Se tivéssemos o costume de ler os manuais que nos são dados, teríamos aprendido a fazer o que precisávamos fazer. Mas não dizemos que sempre é hora para começar?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Trégua

Sem que fôssemos vítimas, fomos condenados. Sem que fôssemos juízes, condenamos. Sem que fôssemos pacientes, ouvimos. Sem que ouvíssemos, perdemos a paciência. Sem que estivéssemos em guerra, preparamos nossas armas. Nos escondemos nas trincheiras, rastejamos pelos campos de batalha. Atiramos, erramos. Sem que fôssemos soldados, perdemos companheiros, territórios. Criamos monstros, traumas.

Sem que esperássemos, chegaram os finais. Sem que quiséssemos, os inícios se pareciam. Sem que percebêssemos, fomos os responsáveis. Sem que sentíssemos, nos percebemos perambulando entre os fatos e pessoas, como se estivéssemos cegos pelos brilhos estranhos das coisas que reluzem. Sem que precisássemos, fomos levados a viver coisas que não desejávamos. Mas sobrevivemos. Um dia após o outro.

Quando basta

Quando algo está distante, basta estender as mãos. Quando algo está obscuro, basta ouvir a voz da intuição. Quando algo está se rompendo, basta lembrar se foi difícil construí-lo.