terça-feira, 30 de julho de 2013

+ Volume

Tem tanto barulho, tanto barulho. Escândalo, gritaria, motor, buzina. Idioma vira martírio. Chama, vende, aluga. Berra. Avisa. Chama a atenção, quer toda a atenção. Quer o caos só pra si. Tem tanto barulho, tanto barulho. Não se salva uma palavra, são todas vazias. É o choro, é o latido. É a porra do vizinho, é a casa do lado. É o aparelho de som, é o escárnio daninho. É foda. Tem tanto barulho. Tem tanto lixo. O que fazer nesse mundo tão repleto de imundície? Calar a boca e jamais se revoltar. Nunca perder o controle. Sorrir e aproveitar. Ser uma porra de santo nesse globo enfermo. Fingir que não tem nada acontecendo. Fazer de conta que não é tão ruim.

E enganar a si mesmo, achando que é fruto de algum engano estar aqui, no meio disso tudo.

Represa

A água corre, sem pressa, sem dar bola para o que vai encontrar pela frente. Leva o peixe, leva o barco, leva o céu refletido em si. Leva tudo o que aparece em seu caminho.

Mas quando encontra o muro, ou a comporta, nem sempre se comporta. Procura as brechas, as rachaduras, os vãos. Procura até que acha, e passa, pouco a pouco, de gota em gota.

Mas, se quiser, pode passar com tudo. Derrubar, espalhar, afogar. Fazer sumir o que estava no mapa. Rola a pedra, remexe a areia, derruba as pontes. Vai com toda força.

A água é a paciência.

E se...

... eu voltasse a escrever?

O que sairia?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ainda bem que tem gente que escreve por nós...


O Anjo Mais Velho

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia o verbo a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... Depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia o verbo a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... Depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar...

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

E o fim é belo incerto... Depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar...

O Teatro Mágico

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mundos

Mundos seus, mundos meus, mundos de mundos, dentro e fora de tudo, de todos pisando o globo, de tudo que vive a fundo. Um mundo a partir do outro, dois a partir de um, um partido em dois, dois de todos os sonhos, os sonhos de todos em Um. Giros extremamente longínquos, criativamente oblíquos a todas as cores dos muros, que separam mundos de mundos, felizes, distantes, sisudos. Os círculos que se expandem cheios de rumos, se expandem como se fossem os únicos, mas como tudo que existe, não são isso, nem últimos. São os tempos flutuando assuntos, imune aos efêmeros túmulos que guardam o ontem e o hoje de tudo. Objetos de firmamento noturno, os mundos revelam muitos proveitos e usos, do mundo convidado ao intruso. Do ao tudo de todos aos tolos de tudo, aparecem sempre os baús de escuros confusos. De lá se tira de tudo: dos poucos que riem, aos choros de muitos. Tira-se tudo até que o nada iluda: um espelho sozinho ao fundo te deixa de frente pro mundo.

Minuto

Um minuto, por favor, sem poesia. Sem rima, sem parada, sem bobagem. Tira, tira a maquiagem. Mostre-se como é, para que todos vejam se é isso mesmo, não se importe se não é. Vai seguindo, vai andando. Mas, faz silêncio. Porque senão ninguém escuta. Ninguém percebe, só faz de conta. Um minuto, por favor, sem essa pompa. Porque sempre cansa. Sempre, sempre. Fica sempre na lembrança. E não se engane: ninguém mais escreve como antes. O tempo passou, o mundo mudou, mudaram o mundo e você nem se ligou. Não. Um minuto, por favor. Só um mísero minuto. Você vai ver que tudo muda. Tudo sobe, tudo afunda. Uma hora a gente cai de cara, outra de bunda. Mas não importa, não encana com isso. Um minuto, por favor, e você vai fazer diferente. Vai ser tudo diferente. Só um minutinho.

Doze

O primeiro dia é um dia lindo, um dia santo. Um dia de início, um início franco. Aberto, definitivo. Um dia e tanto.

O primeiro dia é o dia um, o dia que traz consigo todos os outros, mesmo que pareça apenas um dia comum. Pois é no comum que sobrevivem as farturas verdadeiras, os cansaços e descansos, os trancos e barrancos de uma vida inteira.

O primeiro dia, nesse dia a dia que vivemos, é dia de pensar. E acertar o que está errado nesses mundos tão extremos.

O primeiro dia é o último dia do passado. Que descanse em paz, mantendo-se lembrança. Mantendo-se parâmetro, referência, conhecimento. Que seja essa sua herança, e não os velhos sofrimentos. Que o primeiro dia dure uma vida inteira.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Real(idade)

Nos sonhos reside o real, vestido de névoa fluída, aguardando o final. Ansioso pelo início preciso, já vem pronto e conciso. De todos os passos, deseja só o primeiro. Deste ponto em diante, seu caminho é certeiro.

Peso pesado

A rotina do exagero é o que se joga fora todo dia: é o lixo na calçada, é a fumaça no céu. É a briga por um nada, gente invisível fazendo escarcéu. É tudo rejeitado, a testemunha sem seu véu.

O exagero da rotina é a luta pelo mesmo: é a mesmice da cegueira voluntária, é o passeio com o cachorro. É o calor desejado nas friezas do inverno, é o frio aclamado nos desesperos do verão.

O exagero e a rotina enamoram-se de todos. Dos que ficam, dos que fogem. Dos que bebem e dos que engolem. É a força da estática, a matéria do enfadonho. É o medo desse mundo tão estranho.

Jantar

Todas as luzes acesas, lembrando a ceia, a sobremesa. O copo cheio, a garrafa vazia, o aperto no peito, a louça na pia. O talher e o guardanapo, indiferentes à correria do dia. O dia que não vinha, mas veio. E se foi, como se estivesse a passeio. Como se viajasse no álcool, ou nos orifícios dos seios. Não importa como, simplesmente veio e se foi. 

E deixou seus aromas no rastro, como se a vida fosse apenas isso de fato: chegada aguardada, despedida sentida. Proximidade esperada, distância aborrecida. A ida e a volta do cotidiano. Entra ano, sai ano. Tudo igual num ano diferente, e o vice-versa do ano igual. Tudo que começa bem parece que acaba mal. Mas isso é apenas o normal.